Mavesper Cy Ceridwen – Ato Ecumênico às Vítimas de Santa Maria

Sra. Presidenta, Autoridades, irmãos e irmãs de todas as crenças, como representante do Comitê de Diversidade Religiosa da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, eu venho trazer um texto que é fruto da colaboração de inúmeras religiões, e muitas delas de denominação não cristã.

Em primeiro lugar, como Bruxa e Sacerdotisa da religião Wicca, eu agradeço o convite e a hospitalidade da Igreja Católica e do CONIC, e a nossa participação aqui expressando a diversidade do povo brasileiro e apresentando a vocês um texto que foi composto com a colaboração do Zen Budismo, da Religião de Deus, do Templo da Boa Vontade, da Fé Bahá’i, da Legião da Boa Vontade, da Abrawicca, da IBWB, das religiões de matriz afro, do Santo Daime, da Igreja Messiânica, e de inúmeras outras religiões que não podemos agora mencionar por que realmente representamos dezenas delas.

Falar e reunir a expressão de tantas crenças diferentes, num momento como esse, é uma tarefa muito difícil. E essa é a carta que nós apresentamos, por que mesmo toda nossa diversidade de crenças, ela perde o sentido e se desfaz na solidariedade que nós prestamos às vítimas do incidente de Santa Maria.

ORAÇÃO AOS QUE SE FORAM E AOS QUE FICARAM

“Hoje, nos reunimos em uma Celebração de Passagem. Tudo tem um tempo sob o Sol, e o tempo de alguns muito jovens ainda, em sua maioria, findou. Outros, feridos, ainda lutam pelo restabelecimento. Isso nos assusta, choca e revolta, e expressamos nossa sensação de que é injusto que vidas no início sejam ceifadas sem maiores cerimônias! Essa dor experimentada por cada família perdura por muitos e longos anos. Muitos de nós ansiamos por vingança, justiça, castigos, e isso é compreensível e humano. Mas será suficiente?

Alguns poucos minutos. Foi o que bastou para tornar a vida simples e tranquila de centenas de famílias em uma espécie de pesadelo, do qual elas querem muito acordar.

Nesta hora, lembramos de tudo isso, mas há muito mais a lembrar.

Agora, acima de tudo, muito mais que pedir pelas almas dos que morreram, seja qual for nossa crença, temos que CELEBRAR.

Cabe a nós, reconhecendo a Morte como parte inafastável do ciclo natural da Vida, CELEBRAR.

Não a morte, mas o tempo que foi desfrutado da convivência de cada um desses que foram e aqueles que ficaram. A dádiva da vida.

Destes entes queridos de quem nos despedimos há alguns dias, lembramos de cada vitória, aprendizado, sorriso, lágrima compartilhada, experiência vivida. Mães e pais se lembrarão das primeiras palavras e passos, do primeiro sorriso. O primeiro dia de escola e a primeira vez que, com um aperto no coração, eles deixaram os filhos já crescidos partir para viagens ou baladas. Amigos e amantes se lembrarão de prazeres compartilhados, planos feitos e ambições de futuro. Professores se lembrarão da promessa que cada aluno sempre é. Familiares se lembrarão de festejos e gracejos, brigas, de churrascos e bailes…

Hoje acima de tudo, mesmo em meio às lágrimas e dificuldades, se somos religiosos, agradecemos à Divindade em que cremos, porque tivemos o privilégio de sermos parte da vida dos que foram. Também é assim eventualmente se entre nós houver aqueles que em Deuses não creem, mas também celebram a dádiva da vida, como a naturalidade da existência.

Estes, que se foram a outros planos, ou ao espaço que existe entra o aqui e o nada – seja qual for nossa crença pessoal, enriqueceram nossas vidas de muitas maneiras – e é esse o foco que devemos manter hoje.

A melhor forma de honrá-los e consolar os que choram por eles é esta: rir, celebrar, ser feliz como, com certeza, todos eles desejariam que suas amadas famílias e amigos fossem. Pensem: como eles se sentiriam ao ver pessoas desconsoladas? Não fariam tudo para transformar sua dor em sorrisos?

Por isso, mesmo o luto sendo necessário e inevitável, temos que deixar o rito de hoje ser uma passagem: da dor para a memória das alegrias, do choro para a lembrança dos sorrisos, do medo da solidão para a esperança do reencontro.

Hoje, pois, nós, irmãos e irmãs unidos na Diversidade Religiosa, lembramos que enquanto os que morreram forem lembrados, sua vida será eterna!

Falem deles, contem histórias, partilhem suas vidas e, nesse movimento, cantem suas canções preferidas, revejam suas fotos, bebam e comam o que eles gostavam, transformem os momentos de dor em muitos e infinitos momentos de agradecimento.

A vida, mesmo breve, é uma dádiva inigualável.

Quer creiamos em uma vida eterna no pós morte, quer em reencarnações, ou qualquer das variações desses muitos credos, ou em nada mais que esta existência, tenhamos certeza de uma coisa: os mortos nessa tragédia não morrerão de verdade, porque estão vivos no coração e lembrança de todas as brasileiras e brasileiros e de todos que esperam por Justiça.

Terminamos lembrando o poeta:

“Faze da dor alheia um elo de amizade, (…)
e então compreenderás um pouco da Verdade”.

Abençoados e consolados sejam os que choram de saudade!

Abençoados e curados sejam aqueles que ainda estão enfermos!

Abençoados e redivivos sejam os que passaram para outros planos!

E unidos no pensamento e no coração, estejamos todos juntos nesta noite de amor, harmonia, e agradecimento.”

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