Amar a Deusa entre todas as coisas

A língua portuguesa, como a maioria das línguas ocidentais, utiliza a palavra “amor” para descrever uma quantidade variada e imprecisa de sentimentos. Isso gera uma confusão muito grande quando usamos essa palavra para descrever nossos sentimentos.

Se olharmos a língua grega, por exemplo, veremos pelo menos três palavras – Agape, Filos e Eros – para descrever o mesmo sentimento que nós descrevemos como amor.

Agape seria o amor universal, o amor que um@ brux@ sente ao puxar a lua, o amor que sentimos ao abraçar uma árvore, etc. Esse amor é ao mesmo tempo fácil de se sentir e difícil de se compreender. É também muito difícil, embora não de todo impossível, você ter esse tipo de amor o tempo todo por uma pessoa.

Filos seria o amor de afinidade. É aquele amor que a maioria de nós sente pelos pais, filhos e irmãos, pelos amigos mais chegados. É o amor que sentimos pelo trabalho que fazemos. Embora não tão raro quanto Agape, Filos é também bastante difícil de se sentir o tempo todo, pelo menos em grande intensidade, por um companheiro.

Eros é o amor apaixonado (pode-se chamar de paixão em português). É aquele amor que nos faz sentir o coração bater mais rápido, aquele frio no estômago, aquela vontade louca de possuir o alvo desse amor. É o tipo mais comum em relações entre amantes.

Um relacionamento amoroso precisa, no meu ver, para ser duradouro, que os dois parceiros consigam evoluir de Eros para Filos e se manter nesse patamar. Uma vez lá, o casal precisa oscilar para momentos, mais ou menos longos, mais ou menos intensos, de Eros ou de Agape. Quem já não teve aqueles momentos sublimes, quando você olha para seu parceiro
e pensa “podíamos morrer agora que estava tudo bem…”?

Lembro que uso o termo “evoluir” não para implicar que Filos seja melhor que Eros, mas no sentido de que um deriva para o outro.

Um grande problema é que Eros, como no Mito de Eros e Psiche, é quase sempre associado ao medo da perda. E no mais das vezes esse medo nos leva ao egoísmo e ao ciúme, que acarreta o inferno de dor e angústia que muitas pessoas associam ao amor. Não é o amor que dói, é o orgulho ferido, a sensação de perda, a sensação igual à de uma criança pequena que perdeu o pirulito…

Voltando ao mito de Eros, a maior causa de perda da pessoa amada é quando passamos a conhecê-la melhor. Aí bate aquele medo de perdermos aquela pessoa maravilhosa, que só existe dentro da nossa cabeça, e passarmos a ter que amar uma pessoa normal, cheia de defeitos. É quando Psiche acende a lâmpada e olha para Eros.

Esse comportamento fez, a meu ver, que nós ocidentais “demonizássemos” Eros, por ser sua própria existência a fonte de toda a dor associada ao amor. É a possibilidade de que a paixão (Eros) do parceiro por outrem se transforme em Filos que traz aos relacionamentos amorosos a dor do ciúmes, pelo medo da perda.

Por outro lado, como estratégia de defesa contra essa possibilidade de perda, Eros acabou revisto e idealizado na “coisificação” sexual. Assim, a expressão exacerbada da paixão é tida, com o reforço da expressão artística de massas, como a melhor forma de expressão
amorosa. Casamento sem paixão, nesse padrão, não é um bom casamento. Se eu der mais Eros ao meu parceiro do que ele necessita, ele não vai precisar buscar isso fora. E assim eu não o perco.

Essa é uma armadilha que cria relacionamentos incompletos, infelizes, por que o ser humano tem necessidade de sentir e expressar também as outras formas de amor. Penso ser desnecessário apontar como essa forma incompleta de amor é incompatível com o exercício pleno de um Sacerdócio Wiccaniano.

Outra forma de fugir das dores de Eros, é buscar uma vida só de Agape, que é o estado que muitas ordens monásticas de várias denominações tentam fazer com que seus iniciados atinjam.

O problema aí é que, se o único amor que você conhece é Agape, você é incapaz de amar um ser humano como indivíduo, mas apenas como espécie. Um ser humano normal não é capaz de levar uma vida toda calcada em Agape.

Esse conceito – a vida inteira em Agape – é próximo ao que os budistas chamam de Bodhisattva. Bodhisattvas seriam pessoas com altíssimo grau de “iluminação”, no sentido budista da palavra, que a um passo de atingir o Nirvana se recusam a abandonar o ciclo mundano para se dedicar a socorrer outros seres humanos menos iluminados. Kuan Yin é
um exemplo desse tipo de figura.

Se recusar a sentir Eros e Filos equivale a cortar de você centros emocionais importantes. Mais ainda, significa deixar de agir no mundo como indivíduo e passar a um contato perpétuo com um “divino” ou “mundo superior” abstrato e imaterial.

No meu entendimento, esse tipo de “meta” é também absolutamente incompatível com a prática da bruxaria, ou mesmo de outras formas pagãs, uma vez que parte do pressuposto que o amor material, seja por pessoas, seja por coisas, é impuro e precisa ser expurgado do indivíduo para que este atinja a “luz”.

A bruxaria e o paganismo em geral pregam que tudo que é material é sagrado, por o ser parte do corpo da Deusa. Deusa essa que, justamente por permear de forma imanente tudo o que é material, não pode ser tomada como uma entidade abstrata e imaterial, a ser contatada apenas em momentos de êxtase sublime.

Afirmo ainda que acredito ser impossível amar à Deusa sem amar outros seres humanos e sem amar . Afinal, se sou incapaz de amar plenamente um ser humano, obra da Deusa, como posso amá-La?

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2 pensamentos sobre “Amar a Deusa entre todas as coisas

  1. Chronos, concordo com seu artigo, acho importantíssimo do modo como vc coloca: demonização do Eros; coisificação sexual (também outra saída fácil, Eros não é simplesmente tratar a alteridade desejável como objeto – implica um certo tipo de entrega). Concordo sobre a metafísica ter se configurado como uma fuga, digamos, uma fuga racionalizada do sofrimento inerente ao estar vivo e consciente da impermanência (da incapacidade de possuir continuadamente os momentos e as pessoas que nos são prazeirosos, inventando assim um além onde isso é eterno). Porém, acho que o pulo do gato do Bodhisattva é o retorno, a recusa a abandonar o ciclo mundano, no qual creio que não se recusa exatamente a sentir Filos e Eros, pois se houver recusa não há iluminação (individuação – nada pode ser deixado de fora). Isso quer dizer que não há um além, o nirvana é aqui e agora (até mesmo interdimensional) e depende de nossa postura interior, de reconhecer o Todo neste exato momento, imanência e transcendência (física quântica: o elétron pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, depende do observador). É claro que é bem mais complexo que isso, mas há caminhos muito diferentes no budismo, interpretações menos reducionistas. Creio que haja caminhos da ordem da mística e do mistério em todos monoteísmos (e lembremos que o budismo não aceita nem mesmo o título de teísmo), que são os traços, os rastros da Deusa, para que nos lembremos Dela em qualquer lugar.

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