Feliz Samhain! Feliz Ano Novo! Happy Samhain! Happy New Year!

Samhain2012-2

“QUANDO OS VÉUS SE ESGARÇARAM”

Mavesper Cy Ceridwen

E naquela que era a manhã entre os tempos, Ela sorriu vagarosamente.
Ela já havia feito tudo isso muitas vezes e agora era hora de recomeçar.

Era assim que Ela se sentia a cada giro da Roda, que, inexorável, prosseguia em sua dança infinita e indiferente a todos.

Ela se debruçou no parapeito da janela e enxergou ao longe a poeira de um tropel
de cavalos. Ah, novidades, já não era sem tempo!

Arrumou caprichosamente os bastos cabelos loiros, que já se
entremeavam de branco, o que os fazia brilhar ainda mais. Ela olhou
suas mãos, as manchas da idade surgindo, as veias azulando e contando
no tempo as marchas de suas muitas vidas.
” – E qual mulher não as tem – tanto as manchas, quanto as muitas
vidas?”

Esse pensamento a fez sorrir, em amor e sabedoria, era isso o segredo
de todos os ciclos: aprender as lições, mesmo as mais amargas, com
alegria e uma certa sisudez, um misto de fingida indiferença, um
toque de cinismo, que vê o efêmero se apagar com humor ao invés de
gemidos.

Ela correu pelas escadas, esquecendo que já não era jovem. Correu ao
encontro daquela que descia de seu cavalo branco e
magnífico: “Saudações minha Mãe!” disse a pequena preciosa que
galopara tanto tempo que as faces mostravam o cansaço acumulado. O
rosado de sua tez fazia lembrar as rosas de Litha, enquanto o
castanho dourado de seus olhos trazia as lembranças das folhas de
Mabon.

“Mãe, onde Ele está?” – ela olhava em volta, impaciente e temerosa de
que tivesse chegado muito tarde.

Ela sorriu, mas era um sorriso triste. “Venha criança.” E a Senhora a
conduziu a um pátio interno onde a luz filtrada pela tarde que caia
sabia doce, e canções de pássaros e aromas mil lembravam a distante
primavera. Como aquele nicho de calor e aconchego podia existir e
preservar, milagrosamente, os tempos de calor, ninguém poderia
explicar. Só a Senhora e seu poder de Mistério e preservação poderiam
consegui-lo, mas havia um limite para tudo. Se se olhassem bem as
rosas, se perceberiam as folhas já corroídas pelo vento gelado, os
pássaros migravam a cada dia para lugares mais quentes, os animais
fugiam para começar a hibernar, tudo falava da morte do Sol.

Mas nada poderia falar mais sobre a morte do Sol do que vê-Lo,
agonizante. Embora pálido, Ele não parecia sofrer. Se entregara
sabiamente a seu próprio destino e um brilho de ânimo passou como um
lampejo por seus olhos: “Olá, minha Criança adorada! Olá, Filha do
Sol!” Ele estendeu a mão em uma carícia suave e a jovem conheceu
todo o amor que o Pai nutria por Ela.

Ele começou: “Minha filha, esta é uma despedida, e embora nunca deixe
de ser difícil, nem de ser triste, eu digo – alegre-se, pois é tempo
de comemorar a Vida que é sempre a mesma, a alegria que nunca se
esvai e que me acompanha até mesmo na volta ao ventre Dela.” Ele
estendeu a mão para o ventre grávido da Senhora e o acariciou também.

“Quando amanhã as flautas tocarem seus lamentos e minha alma subir
acompanhando o vôo do primeiro pássaro que a pegar, quando ele deixá-
la cair na terra, como semente, eu brotarei. E serei de novo o Jovem
Que Espalha o Pólen, O Homem Verde, aquele que é o Senhor de todas as
coisas que crescem. E correrei novamente na Grande Caçada com os
gamos, como está escrito no ciclo de todos os tempos, onde o Universo
não acaba e a alma de tudo o que há se cria e recria a cada centelha
de tempo.”

Ela só pensou, não formulou a pergunta. Pensava ;”Pai, que
inutilidade! Tudo nasce,cresce, morre, a despedida é tão triste e
tudo volta. Será que isso nunca termina, vc não contesta isso? Vc não
deseja que acabe?”

Mas Ele, já tão perto do desfazimento do Grande Útero Dela, ouviu
cada pensamento e respondeu, suave como o acariciar de uma pluma. “Ah
filha, a cada ciclo, é Ela que manda ” e apontou a Mãe. A menina
voltou os olhos para Ela por um momento em fúria muda. Ela, que
conhecia aquela reação, sorriu, docemente. Estendeu as mãos para a
filha, que se aninhou e disse: “Pequena criança, a lição dos ciclos
é, em verdade, a única lição da natureza. Nela residem o milagre da
multiplicação, a benção do crescimento, as colheitas de tudo, o
frutificar constante e a foice que nunca cessa. Inútil? Mas, meu
amor, tudo o que eu faço é por Você!”

A jovem voltou para Ela seus olhos espantados:
” Como assim, você precisa matá-lo por mim???”

A Senhora prosseguiu:
” Sim, pois quando você me pede Luz, eu tenho que produzi-la de um
parto de estrelas – e isso explode mundos. Quando você me pede pão, é o
corpo Dele que eu ceifo para servir à sua mesa. Quando você me pede
água, são minhas entranhas que abro em farto oferecimento que te
nutre. A Vida se alimenta da Vida, esta é a singela lição dos ciclos:
para que a Roda gire é preciso ceifar, para que a Vida continue, é
preciso morrer. Para que as coisas mudem é preciso deixar ir.”

E Ela ergueu sua foice de prata, brilhante à luz da Lua que já se
erguia. Tocou levemente a fronte do moribundo, que, em instantes,
sorria, já no fundo do aconchegante ventre Dela.

A Jovem piscava, olhando o corpo que brilhava na cor do Sol poente e
se desfazia em líquido dourado, que alimentava a Terra.

E a Senhora disse: “Hoje sorria e celebre, hoje cante e rememore, o
Pai Caçador se foi e está voltando”. Pegou a mão Dela e encostou no
ventre grávido. Sinta minha Filha, a Vida Dele em minhas entranhas.”

Nesse exato instante, a menina se contorceu de dor e o sangue
escorreu abundante por suas coxas e pernas e alimentou a terra. E Ela
conheceu sua primeira lua de sangue nesse exato instante. A Senhora
sorriu e a fez ver que a celebração tinha que ser ainda maior: eram
agora irmãs em tudo.

E as duas, abraçadas, deixaram o jardim, onde os primeiros flocos de
neve caíam e , manchados com o sangue vertido pela Donzela,
alimentaram as macieiras.

Este é o Dia de Samhain, dia em que as maçãs tem sabor de saudade e
de futuro, dia em que a Mãe, que já é a Velha, consola a Donzela, que
é Ela mesma.

E Elas, Aquelas Cujo Nome Não Pode Ser Dito, unidas pelo amor
profundo ao Pai que se foi e retornará Menino de novo, continuam
juntas, descansando no escuro, até o amanhecer de um novo tempo do
Sol.

When the Veils Unraveled

by Mavesper Cy Ceridwen
And in that which was the morning between the times, she smiled slowly. She had
already done it time and time again, and now was the time to begin it anew. That was
how she felt at every turn of the Wheel which, inexorably, went on with its unending
dance, unconcerned for all.
She leaned over the window’s lintel and saw at a distance the dust of many horses
galloping. Ah, news, it was about time!
She neatly arranged her luxuriant fair hair, which was already interspersed with white,
making it shine even more. She looked at her hands, with the aging spots already
appearing, the veins getting bluish, while counting in the time the marches of her many
lives.
“– And which woman doesn’t have them – both the spots and the many lives?”
That thought made her smile; in love and wisdom, this was the secret of all the cycles: to
learn the lessons, even the most bitter, with joy and a certain seriousness, a mixture of
feigned indifference, a touch of cynicism. To learn to see the ephemeral fade away, with
humor rather than groans.
She ran down the stairs, forgetting she was not so young anymore. She ran to meet she
who was getting down from a white magnificent horse: “Greetings, my Mother!” said the
small precious lass. The girl who galloped so long her face showed the accumulated
fatigue. The pink of her complexion reminded of the roses of Litha, while the golden
brown of her eyes brought the memories of the leaves of Mabon.
“Mother, where is He?” – She looked around, impatient and fearful she had arrived too
late.
She smiled, but it was a sad smile. “Come child.” And the Lady guided her to an internal
courtyard where the light filtered by the falling afternoon tasted sweet, and the singing
of the birds and the thousands of smells reminded of the distant Spring. How that niche
of warmth and coziness could exist, while miraculously preserving the times of heat, was 41
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a thing no one could explain. Only the Lady and her power of Mystery and preservation
could achieve it, but there was a limit to everything. If you looked closely at the roses,
you’d notice the leaves already eroded by the chilly wind, the birds migrating every day
to warmer places, the animals fleeing to start their hibernation. Everything spoke of the
Sun’s death.
But nothing could speak more about the Sun’s death than the seeing of Him, agonizing.
Though pale, He didn’t seem to suffer. He had given himself over wisely to his own
destiny, and a brightness of enthusiasm passed as a flash over his eyes: “Hello, my
beloved Child! Hello, Daughter of the Sun!” He reached out in a gentle caress, and then
the youngster knew all the love the Father nourished for Her.
He started: “My daughter, this is a farewell, and although it never ceases to be hard, nor
sad, I say – rejoice, because it is the time to celebrate Life which is always the same, the
joy that is never lost and which escorts me even in my return to Her womb.” He reached
out to the Lady’s pregnant womb and caressed it as well.
“When tomorrow the flutes play their mourning and my soul rise with the flight of the
first bird that gets it, when the bird drop it in the land, as a seed, I shall sprout. I will be
again the Youngster Who Spreads the Pollen, the Green Man, he who is the Lord over
everything that grows. And I shall run again in the Great Hunt with the deer, as is written
in the cycle of all the times, where the Universe never ends and the soul of everything
that exists is created and recreated with every spark of time.”
She only thought, without asking the question. She thought: “Father, what a
waste! Everything is born, grows, dies, the farewell is so sad and everything comes back.
Will it never end, do not you challenge it? Do not you desire it to end?”
But He, already close to the undoing into Her Great Womb, heard every thought and
answered, smooth as the caressing of a plume. “Ah daughter, every cycle is She who
commands” and pointed to the Mother. The girl turned her eyes upon Her for a
moment of mute anger. She, who already knew that reaction, smiled sweetly. She
reached for her daughter, who huddled herself and said: “Small child, the lesson of the
cycles is, in truth, the only lesson in nature. In it dwell the miracle of multiplication, the 42
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blessing of growth, the harvesting of all, the everlasting fructify and the scythe which
never ceases. Wasteful? But, my love, all that I do is for You!”
The young one turned to Her with astonished eyes:
“How come, you need to kill Him for me???”
The Lady went on:
“Yes, as when you ask me for Light, I have to produce it in a birth of stars – and that
explodes worlds. When you ask me for bread, it is His body that I reap to serve at your
table. When you ask me for water, I open my entrails in a hearty offering that nourishes
you. Life feeds on Life; this is the down-to-earth lesson of the cycles: so that the Wheel
may spin, the reaping is needed, so that Life may continue, the dying is needed. So that
things may change, the letting go is needed.”
And she raised her silver scythe, bright to the light of the Moon already rising. She
touched lightly the forehead of the dying one, who presently smiled, already in the
deeps of Her cozy womb.
The Youngster blinked, looking at the body which glowed with the color of the setting
Sun and was melting away in a golden liquid, feeding the Earth.
And the Lady said: “Today smile and celebrate, today sing and remember, the Father
Hunter is gone and is coming back.” She took Her hand and put over the pregnant belly.
“Feel my Daughter, His Life in my guts.”
In that exact moment, the girl writhed in pain and the blood flowed abundantly down
her thighs and legs and fed the land. And She knew her first blood moon in that exact
moment. The Lady smiled and pointed out the celebration had to be even greater: they
were now sisters in all aspects.
And both, embraced, left the garden, where the first snowflakes fell and, colored with
the blood of the Maiden, fed the apple trees.43
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This is the Day of Samhain, the day in which the apples taste of nostalgia and of future,
the day in which the Mother, who is already the Crone, consoles the Maiden, who is
Herself.
And They, Those Whose Name Cannot be Spoken, united by the profound love to the
Father who is gone and will return as Boy again, are still together, resting in the dark,
until the dawn of a new time of the Sun.
PRAYER TO THE LADY OF SAMHAIN
Lady
Make my life a hymn to Thee
May my voice sing thy songs,
May my fingers describe thy wonders
May my mind receive and translate thy words.
Oh, Mother, the earth is thine, as I am thine.
Oh, Mother, the earth is mine, as Thou art mine.
Lady of All that exists,
Lady of All there is
Teach me the simplest lesson:
that by Thee I always know how to dream,
that by Thee I learn how to glow!
And in the colored powder of the stars of thy robe,
May Thou smile at every tear, every cry.
And in the spark of life that is going away,
Thou shall always be loved and in love with us.
(Translation to English by Chronos Phaenon Eosphoros)

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