PORQUE PREFIRO A GRAFIA “WICCANIANO”

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O adjetivo aplicado a quem pratica a religião chamada Wicca, já causou muita controvérsia nos meios pagãos do Brasil. Houve época em que, inclusive, foi criado um tipo de discriminação, quando os que utilizavam a expressão “wiccano” passaram a chamar de “falsos pagãos” os que se denominam “wiccanianos”.

Trata-se de escolher a versão portuguesa melhor para a palavra da língua inglesa “wiccan”.

Há mais de vinte anos, quando começaram a ser vertidos para o português livros de Wicca, cada tradutor optou por diversas formas diferentes. Alguns traduziam o termo simplesmente por “bruxos” ou “feiticeiros”, com a desvantagem de não estarem usando um termo que identificasse especificamente os praticantes de wicca. Outros, preferiram manter a grafia wicca tanto para designar a religião, quanto  para o adjetivo referente aos adeptos, o que era incongruente.

O tradução do livro de Gerina Dunwich usou a palavra “wiccaniano”, em 1994.  Mesmo antes nos meios pagãos brasileiros essa palavra era largamente utilizada para designar os praticantes de wicca.

Em 1999, ao traduzir outras obras, anos depois, o tradutor Claudio Crow Quintino propôs a adoção de um neologismo : criou a palavra “wiccano”.

Segundo ele, “wiccano seria a melhor tradução para “wiccan, porque essa palavra se assemelha em inglês a “american”, que é vertida para o português como “americano”. Continua seu raciocínio o referido tradutor dizendo que, pela lógica, se fossemos dizer wiccaniano teríamos que dizer “americaniano”. Considerou, pois, o termo “wiccaniano” um “erro de português”. Desde então, tem divulgado amplamente que “wiccaniano” uma expressão que é “uma afronta à língua portuguesa”.

Discordamos frontalmente do Sr. Claudio Crow Quintino e continuamos a chamar os praticantes de wicca de wiccanianos.

Perguntamos: o que faz uma língua é seu povo, os milhares de pessoas que sempre usaram a expressão “Wiccaniano” nos meios pagãos, ou a decisão isolada de um tradutor?

Cremos que a resposta é óbvia, mas, ao ouvir a falácia de que seria um erro de português, muita gente está, agora sim,  sendo induzida a erro…. Wiccano é uma grafia possível, mas sem uso anterior que a justifique. Por que acreditar que é “mais certa”? Ou, pior ainda, que é “a única” certa?

Vamos , pois,  raciocinar

Usemos como exemplo a palavra “football”, originariamente inglesa. Quando o jogo veio ao Brasil se tornou “futebol”. Mas porque não se tornou “futibol”, ‘futeboal”, futebal” ou futibóu’???? Simplesmente porque o costume determinou a grafia. Havia os puristas da língua portuguesa a condenar o anglicismo e exigir que se falasse em “ludopédio” ou “balípodo”. Você já chamou seus amigos para um partida de balípodo? Você é craque no ludopédio? Desculpe, craque , não… Expert… ops!

Vamos observar alguns exemplos.

O tradutor defende que tudo se trata de comparar a palavra wiccan, com a palavra american.

O primeiro “furo” em sua teoria é comparar uma palavra que é gentílico (relativa a naturalidade ou nacionalidade das pessoas) com Wicca, que nada tem a ver com nacionalidades. Isto se afirma porque há normas específicas para os adjetivos gentílicos, inaplicáveis aos outros totalmente.

Lembremos outras palavras em inglês e observemos quais as desinências utilizadas em sua versão portuguesa. Ao lado, imaginemos a grafia do adjetivo relativo à wicca, se defendessemos a aplicação da mesma terminação, como fez o Sr. Quintino.

CANADIAN – CANADENSE – WICCANENSE

JAPAN – JAPONÊS – WICCANÊS

PAGAN – PAGÃO – WICCÃO

ITALIAN – ITALIANO – WICCANIANO

IBERIAN – IBÉRICO – WICCÉRICO

CHRISTIAN – CRISTÃO – WICCÃO

SPANIAN – ESPANHOL – WICCOL

ASIAN – ASIÁTICO – WICCÁTICO

Outras palavras, que não são gentílico, nos oferecem ainda outras terminações:

ORPHAN – ÓRFÃO – WICCÃO

CORSARIAN – CORSÁRIO – WICCÁRICO

ASIAN – ASIÁTICO – WICCÁTICO

ARTISAN – ARTESÃO- WICCÃO

CHRISTIAN – CRISTÃO – WICCÃO

Fica muito fácil perceber que se o tradutor em questão tivesse escolhido qualquer outra palavra terminada em AN em inglês, sua decisão de tradução poderia ter sido  diferente. Por que não usou “wiccático”, “wiccão”, “wiccérico”, “wiccário”, etc?

A comparação específica com a palavra canadian nos permite perceber que não há qualquer vinculação entre a terminação AN em inglês e a terminação ANO em português. Que diferença de estrutura há entre as palavras AMERICAN e CANADIAN? Absolutamente nenhuma. Enquanto uma termina em ANO a outra vem para o português terminada em ENSE. Onda a norma irrefutável alegada pelo Sr. Quintino? É mera opção pessoal, nada mais.

Na verdade, há regras linguísticas ,sim, para fazermos a versão para o português, Devemos nos basear na palavra como ela é escrita em português, e não em inglês, para obter a grafia do adjetivo. Devo basear-me em “américa” para gerar americano, e não “american” . Porque a palavra “América” tem a vogal temática oral, portanto a regra geral é o sufixo “ano ou ana” = americano. Mais alguns ex.: venezuela =venezuelano, cuba = cubano , bolivia = boliviano . A vogal é oral. Já a palavra “irã”, por exemplo,  tem vogal nasal, o til se transforma em “n”(na verdade poucos sabem que o ~ é um “n” arcaico), e se é nasal forma “iraniano”. Esse seria o paralelo que autorizaria o uso de wiccaniano ( bem diferente do que afirmou alguém na lista, não há dois sufixos, ai, como outras palavras comprovam).

Se fosse aplicável a Wicca a regra da vogal oral ou nasal, a vogal da palavra Wicca seria realmente oral e estaria certo o Sr. Crow Quintino. Porém, há um “pequeno detalhe”: a A PALAVRA WICCA NÃO É PORTUGUÊS! Ou seja, a regra é inaplicável.

Tomei a liberdade de consultar um mestre em linguística e expor a ele a questão. Sua resposta foi a que segue:

“Ao se usar a forma “wiccano” como uma maneira de adaptar a palavra “wiccana” para o Português, incorre-se em um desvio da significação do sufixo “-ano”. Assim como “-ense”, “-ês”, “-ista”, o sufixo “-ano” possui o valor semântico de indicar origem, nacionalidade, naturalidade como em “piauiense”, chinês”, “americano”. Dessa forma, a opção por “wiccano” parece ter sido baseada apenas em uma transcrição fonética, o que não permite aproximá-la do significado em inglês, “praticante”. Para se obter essa significação em Português, podemos usar os sufixos “-eiro”, “-ista”, “-dor”, “-or” que são indicadores de profissão, atividade”

Ou seja, para nos mantermos fiéis ao bom português teríamos que nos chamar wiccador, wiccor, wicceiro, wiccista… heheheheh Alguém topa? Eu não!

A construção american/ wiccan/ wiccano é simplesmente arbitrária e artificial. Ou seja: apresentada como “o único português correto” nada mais é do que um neologismo de discutível aplicação. E neologismo por neologismo, sem base outra que o uso e costume das pessoas, prefiro a forma mais antiga e consagrada: wiccaniano.

Não se criam normas na língua portuguesa por decisões isoladas de um tradutor. É preciso pensar e julgar antes de aceitar os carimbos prontos de “erro de português”.

Basta pensar que antes dele outro tradutor já havia consagrado a palavra “wiccaniano”, de há muito largamente utilizada por todos os praticantes de nossa religião. E que o que faz uma língua são as pessoas que a falam. Não implica nossa discordância qualquer demérito do Sr. Quintino, apenas me reservo o direito de não aceitar suas regras, ou sugestões.

Enfim, a verdade é que a língua é dinâmica e muda constantemente. O que determina a prevalência de uma palavra? Por que o jogo se chama futebol e quase ninguém sabe o que é ludopédio? Porque as pessoas assim decidiram, nós, os que a falamos todos os dias.

Por isso, creio que nem wiccaniano, nem wiccano devem ser vistos de forma a classificá-los  de corretos ou incorretos. Ambos são formas possíveis de tradução da palavra “wiccan”, embora, pelo uso de mais de uma década, a palavra wiccaniano já se tenha consagrado de há muito. Sem mencionar que “wiccano” tem um som que não agrada os ouvidos.

Esses os motivos pelos quais sou, e continuarei sendo, uma wiccaniana brasileira.

Mavesper  Cy Ceridwen