Vida

Estrela da noite que me acompanha os dias, vivo para viver-te, e escrevo-te para reler-te quando não estás aqui ao meu lado, ou bem ali adiante, te adiantando a mim antes mesmo que eu mesmo saiba de mim o que de mim há para saber.

Para ti contenho o aliterar que altera em lente o lépido sentir de meu ser, lento em expressão contida. És para mim paraty selvagem que inebria o fundo fundo de meu ser, teus desejos últimos são sempre para mim primeiros.

Explodes em sentimentos que me atingem em cheio, tingindo-me do sangue rubro do teu sentir. Sentidor colérico que sou, ressoo o retumbar profundo de teu tocar-me, tocando a vida conjunta que vivemos juntos, perambulando sentires de ontem que vivemos hoje prevendo o amanhã que nunca se amanhece manso.

Por ti me faço relento… Orvalho manso sobre flores bravias – a Flor que escreve de tua flor, e tua flor, Estrela. Me faço assim um mar que se expande contido num rio estreito de possíveis viveres num amar contido de quem quer amar o sempre para sempre hoje.

Felizes os encontros que nos ampliam a vida e, mesmo que de encontros desencontros venham e o adeus se faça entrevisto, entrevisto meus sentires e respondo-me que te amo, que te amo mais, mais que o sal, mar que sou, e sem sal não vivo, vida.

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Iniciadora

Turbilhão de vida sentida no presente eterno de um futuro incerto, me acendes todo dia a dia na pia vida de viver-se em pira. Ardo em pensar-te ardendo febril num viver ardente, al dente…

Pressentimentos especulativos espelham possíveis legados futuros relegados à margem imaginativa dos sentimentos agônicos entalhados no detalhe devoluto dos pertinentes temas tenentes ao se ter presente possibilidades vivas.

Recursos aderem ardis à dor dormente e a dor nos mente para revelar dormências que você menciona aporicamente e a mente imensa mensura a pira da mente ardente e medica a mente insone insana de se sentir dormente.

Criadora do hoje crias a dor que incriada inculta dói mais, por menos, que o ser que sói incluso na oclusão da mente obtusa à dor obturada por pensares curtos e cortinas obscuras, descortinando o passar eterno do pressentir interno.

Saio à busca de mim perdido que estou da luz mas no iniciar constante da pia solitude agrupas garupas de um cabelo ao vento cujo peito, nu, desnuda a grapa que se toma do tempo que oculta a dor pois mente a mente demente da mente que se desmente insistentemente, memórias irmanadas.

Presente

Presente.

Me acalmo numa calma encalmada em minha alma incólume de tantas escaras escancaradas do passado, que são minhas, tão minhas, só minhas que apenas eu mesmo atribuo ao antes, ao agora e ao depois, semprenunca que nuncassempre se acalma.

Certo pelo incerto, certo pelo errado, erros que acertam, desacertos desconsertados. No desatino do novo de novo a presença do sempre nem sempre se manifesta abertamente, mas aberta a mente o sempre sempre esteve presente na sempiterna presença de sempre.

Vivo na roda viva da vida e rodo no rodopio do peão que resvala nos vales novos e nos renovados resvalares dos montes nem sempre quase nunca velados. Vale mais manter que desmantelar, já que de novo do novo não se faz o antes mas se renova no agora o amanhã de ontem.

Peão no xadrez de Luz que lança mais sombras no verso da vida cujo anverso vivo reluzente no ente antes anteposto como anteparo para os vícios de se resvalar no novo para se encontrar o sempre e de costas me acosto ao calor da luz que sempre lá já é, mas no acomodar de um cômodo incômodo incomodo a fonte que antessempre lá se fez.

Na plenitude do sentir-se sempre sempre se esquece que o sempre sempre vem mas se incativado o sempre nem sempre sempre está presente ou, presente, não se sente presenteado pela presença não antes pressentida do presságio de noites futuras.

Mas no presente dádiva da diva avessa à desestruturação do ninho onde o menino niño se anida numa nidação constante e mansa da condição perene que imperene impregna o antes com o amanhã de ontem, ente entrevisto o entrevelar velado da noite, eu que presente presenteio palavras lavradas deslavadamente da mente amante do sempre, semprepresente.

Camadas

Meu pensamento é em camadas, estratificado, extraio dele sentidos mil, ramificados e radificados, raízes galhadas, gargalhadas soltas. Te dizes ávida e respondo que assim estás porque há vida, ó vida, não te olvides.

Em minhas muitas camadas, por aí vai, estou poético, sou poético, tento não soar patético, sendo pórtico do que dou à vida. Recolho fragmentos do dia a dia, me policio, eu mesmo me flagro e me aprisiono, difícil é me flagrar não pensando em ti.

Se dizes que escrevo bem, meu amor, respondo que escrevo bem teu amor, que tenho em mim por já meu, afinal a finalidade não é a tal felicidade? Assim sendo, e assim o é, estamos a fim, a finis, afinidades que se afinam ao finar do dia.

Meu pensamento é em camadas, acamado que não estou, camas apenas suportes fáticos – fálicos? – para o hipertexto do meu sentir, na metanoia da vida, escamando os sentires que rodam ao meu redor, redondamente certo que sou de estar errado e, errante, errar o certo e acertar a vida, ávida.

Interrupções espocam ao meu redor, Direito, surpresas, animais, irritações, desarmonias, desencontros onde me reencontro e que me fazem me perder nas camadas que eu mesmo traço, mas me acalmo e a calma me leva a reencontrar camadas outras, que não veria se a paz em mim se fizesse ou se não fizesse.

A finesse da vida ávida se divide em links soltos que no conjunto estão presos entre si e aos outros, links de outros likes. Me vejo assim rodogirando em moinhos de vento que minhas ventas aventam do ventilar de ideias liquefatas pelas fadas loucas que me rodeiam inspirando a poesia que se expira espiralando sons.

Meu pensamento é em camadas, e ávido olvido a dor de ontem me concentrando no que faço já, de sempre feito, mas desfeito me desfaço em desfaçatez insensata sentida na escorregadia encosta que se escorre sob os pés pesados de vontade e sanha, se me assanhando pela senda da insensatez incenso a tez tua em meu tesar de texto, tessituras texturizadas.

Nas referências às metareferências referenciadas já com outras metas e métricas metrificadas, me meto a meter mais referências às camadas que em mim mesmo referencio, reverenciando o traço, ou traços, que traço e manjo quando almejo a meta sonhada e redividida, revivida e redivivida. Alijo alguns à liga dos não referidos por não se referenciarem em minhas reverências à revelia do que revejo.

Tento cantar em prosa, falho em conec-concatenar-me ao ritmo que se quebra em trêmulos espaçares pois a volta que volta na revolução revel de meu pensamento, retorna e torna a se entornar no entorno de meu sentar-me, assentado em sentidos na virada sem norte de meu falar.

Meu pensamento é em camadas, da capo.

Pretensão

Hoje encontrei uma parte de mim que eu não conhecia. É muita pretensão, se ver em alguém admirada, mas que nunca se tinha visto antes? Minha escrita é solta, solto no mundo os borbotões do meu sentir, ora sôlto – oras, se sólto. Mas me espanto de ler algo e dizer que poderia tê-lo escrito. Mais ainda quando quem escreveu é fascinante e altamente aclamada.

Ad miro, olho pra ela, e a admiro. Admiro nela o que sinto em mim, leio nela o que escrevo em mim, me espelho nela, que nunca vira antes, e me reviro em toques obsessivos de busca faminta pelo que leio dela.

Me fascinam esses encontros da vida, que gravam em mim o que já fora gravado, fora de mim fora de minha agonia de sentires sobrepostos. Sobreponho minha leitura à escrita dela e, por isso, a admiro tanto? Ou já antes ela se sobrepôs a mim e por isso faço desde sempre o que admiro nela?

Não pretendo ser o que não sou, sei que sou apenas o que sou, nada mais – mas também nada menos, e isso não é pouco, sei, embora pouco seja bem o que sinto ser quando me vejo naquela que eu nem sabia do ser. Coisas estranhas nas entranhas de meu ser…

Solve et Coagula

Dormir às cinco, acordar às nove, deitar a dois, viver a três, pensando em quatro. A vida revolve números e resolve tudo em um revólver que gira, carregado, roleta viva de fragmentos soltos que revolvem dias.

Semana passada escreveu-se o tema de ontem publicado hoje no acaso bizarro do dia a dia. Na pia das almas, dissolve-se o pensar, destrói-se o pesar, pesa-se o devir e colhe-se o de já. Viu-se isso tudo mais de uma vez, voltas da roda que perfura em espiral, sempre o mesmo e, por sempre, nunca.

Dissolve-se o mundo em sentir-se rótulos, coágulos de sentires que se sentem necessários, mas precários apenas rotulam o que já lá há: amores aprazados em prazos incompreensíveis compreendidos em rodas que se encurtam, encurtando o sono de quem já não dorme.

Do uno emana o dois que produz o três e se estabiliza em quatro. Solve et coagula, mas com a gula de todos, nada se resolve…

Descavalherismo

Não sou desses de levar café na cama. Não abro portas, não cedo passagem, divido as contas – isso quando não peço descaradamente que as paguem. Não me ofereço para carregar suas malas, não troco os pneus de seu carro, não troco suas lâmpadas.

Não. Nada disso.

Mas sirvo-me a vocês em poesia, derramo meu sentimento na ladeira escorregadia da vida. Morro quantas mortes precisar em seu nome e (re)nasço apenas pelo prazer de vê-los. Velam vocês por mim, eu sei, como velo eu e velejo no mar manso do amar tranquilo.

Sirvo-me diuturnamente em serviço, saudoso que fico de um sorriso, sorrindo sozinho comigo ao pensar apenas em vocês. Sirvo por que quero, não por cavalheirismo, esse parcelar da conta da Dama que na verdade é outra. Outra forma de se pagar, em sangue, a conta da cama.

Não. Não pago.

Divido, divido-me, endivido-me, me penhoro à guisa de doar-me, mas sem contas, pois conto apenas com o encontro reencontrado na felicidade mansa do feliz (re)encontro, Flor, Estrela e Luz.

Sou descavalheiro, não sirvo para servir apenas sevícias disfarçadas em favores rotos imanados de contas cobradas em sangue e lágrimas. Sirvo apenas pelo prazer de servir poesias matinais e minha vida rediviva revivida na (re)descoberta da vida.