“Famílias Doriana” e o machismo nosso de cada dia.

5wordssexist

Hoje eu quero falar de uma coisa muito séria: sexismo.

Navegando em minha timeline do Facebook, eu recentemente encontrei um texto, em inglês, cuja tradução é mais ou menos esta aqui:

Cinco Termos Mortais Usados por uma Mulher
1. “Tudo bem”: Essas são palavras que as mulheres usam para encerrar um argumento quando ela sabe (sic) que está certa e você precisa calar a boca.
2. “Nada”: Significa algo e você precisa se preocupar.
3. “Vá em frente”: Isto é um desafio, não permissão, não faça isso.
4. “Que seja”: O jeito de uma mulher dizer foda-se.
5. “Isso é ok”: Ela está pensando longa e duramente em como você vai pagar pelo seu erro.
PALAVRA BÔNUS: “Uau”
Isso não é um elogio, ela está espantada em como uma pessoa pode ser tão burra.

O texto foi postado por uma pessoa amiga minha, a qual eu considero bastante esclarecida com relação às questões de gênero, e vinha acompanhado de um comentário, também em inglês, mais ou menos na linha “Garotos, aprendam!”.

Conversando com a pessoa, tentando apontar o conteúdo sexista da mensagem, a resposta que recebi foi: “Mas as mulheres são assim mesmo e os homens precisam aprender isso. Lá em casa funciona exatamente assim”.

Bom, minha resposta foi “então você vive em uma casa machista”.

Então, vamos, lá, por que esse texto é machista?

A resposta mais simples é: porque ele representa a mulher como um ser maquiavélico e dissimulado a ser temido pelos homens, dando razão a uma série de agressões à mulher. Afinal, um ser tão malévolo merece ser agredido.

Esse tipo de texto, e há milhares de variações dele circulando pelas Internets da vida, supostamente pretende ser engraçadinho e mostrar os gêneros “como de fato eles são”, perpetuando na verdade um discurso sexista que incentiva a desconfiança mútua entre os gêneros e, como consequência, uma competição nada saudável para “estar certo”.

Piadas sobre sexismo são veículo para a perpetuação desse mesmo sexismo. Toda vez que você assiste um vídeo, lê um texto, vê uma charge, etc., sexista e pensa consigo “Hahaha! É assim mesmo…”, você está contribuindo para alimentar o sexismo que foi dado a você por nossa sociedade desde o berço, junto com suas mamadeiras e papinhas.

Essa mesma sociedade é aquela que nos criou naturalizando um conceito de família “monogâmica” heteronormativa, onde mamãe fica em casa cuidando das “coisas de mulher” e das crianças e papai sai para trabalhar, trazendo para casa o sustento de todos. Daí, vemos as famosas “famílias Doriana”, onde papai, mamãe e as crianças tomam juntas sua refeição matinal, numa bela cozinha iluminada pelo sol da manhã, todos sorrindo felizes. O que o comercial de margarina não mostra é o que vem por trás disso.

Nesse modelo de família, exige-se que essa mulher seja totalmente fiel e submissa ao marido, ao passo que dele, marido, é tolerado que tenha “aventuras” com outras mulheres, desde que, “claro”, não deixe faltar nada em casa. Enquanto ele estiver cumprindo seu papel de provedor, sua palavra é lei e tudo que ele faz deve ser tolerado e todos devem ser felizes com isso.

Por outro lado, a mulher pode então, “justificadamente”, sendo maquiavélica e dissimulada, puni-lo por essa “infidelidade”. Não pode fazê-lo abertamente, “claro”, pois isso seria o cúmulo da falta de noção de seu lugar na “natureza das coisas”. Afinal, o cara está ali, trabalhando de sol a sol, para mantê-la, e às crianças, como assim ela ousa se levantar contra ele!

Pior ainda se a mulher, esse ser indômito, resolver ser “daquelas” que também trabalham. Ainda assim, “ajudando” o marido, não podem ditar as normas do lar e, injustiça suprema, ainda se submetem a uma tal “dupla jornada”, que absurdo! Ter que trabalhar fora o dia todo, voltar para casa para cuidar de tudo – afinal, são “coisas de mulher” – e continuar mesmo assim submetida ao jugo do bonus pater familias.

Daí, à mulher, “por natureza”, “sendo ela mesma”, um ser injustiçado pelo carrasco tirânico que a aprisiona em um cárcere onde é obrigada a trabalhos forçados e favores sexuais, não resta nada mais que usar o único poder que tem, a terrível vagina dentata, para se vingar disso tudo e “fazer justiça”.

E o homem, “claro”, pode “justificadamente” agredi-la de volta, da forma como ele sabe fazer melhor, na “porrada”, na agressão sexual, na nossa tão tristemente conhecida e bem difundida violência doméstica. E está tudo certo, não? Afinal, “somos assim mesmo”.

E mais, não contente em se vingar da mulher que tem em casa, o homem “sai às ruas” para agredir a mulher como gênero. Afinal, “elas são assim mesmo”, nos sacaneiam o tempo todo, aproveitam enquanto estamos trabalhando para “nos chifrar” com outros caras, e ainda por cima ficam aí nos dizendo que está tudo bem quando não está, só para nos dar o troco depois… “Querem nos castrar, essas vadias!”.

Dá pra ver onde isso está errado? Precisa desenhar? Aliás, se precisar, é só olhar as feições da “amável mãe de família” na imagem que ilustra o texto que estamos discutindo.

Como consertar isso? Um bom começo é pararmos de tratar as pessoas que nos são companheiras como antagonistas e tratá-las como, veja só, companheiras! Confiança recíproca, cumplicidade, amizade entre os cônjuges.

São conceitos radicais! Cuidado! Você pode deixar de ser você mesma!

E que bom para todos os envolvidos se isso acontecer.

(#PraCegoVer Este post é ilustrado com a imagem de um retângulo cor-de-rosa. Dentro, há como título a frase “Five Deadly Terms Used by a Woman”, ao lado da caricatura de uma mulher carrancuda e de braços cruzados. Abaixo, um texto borrado a ponto de estar ilegível.)

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