Antropos

Hoje eu acordei antropofágico. Quero devorar o Outro e fazê-lo Eu. Quero poder querer sempre que quiser. Tenho fome de ler, fome de ser, fome do espelho que me reflete a alma. Quero devorar flores e canções, palavras e emoções, mídias e marolas. Desde a mariola de minha tenra infância, doces de abóbora, brincadeiras de corda e pique, pau-a-pique, diria…

Quero me invertebrar invertendo a lógica inveterada dos veteranos vetustos e cabriolar no ritmo de palavras outras, além das minhas, maminha, cupim e contra filé – mal passados, pois, sempre ouço que quem ama o passado não vê que o novo de lá já vem.

Não faço sentido, não sou soldado, nem rebitado, diga-se, sou móvel, sou utensílio, tombado nos livro do mundo e repisado, repatriado numa acolhedora pátria inóspita, viva porém mortal, colhida da semente mortífera, no radinho da ilha sonífera.

Quem há de querer comigo, o milho das espigas descorçoadas que seguem introduzidas no escuro da alma de minha pátria, contrarregras que não as contrariam, mas enfiam, goela abaixo ou rabo acima, lixo visceral comercializado e industriosamente extrudado dos estudos enlatados?

Sei que tenho fome. Sei que quero, não sei o que quero, mas quero, como o quero quero que também não sabe, nunca o soube, sabido que não sou, e por não ser o sou, sendo o querer da querela, e do querelar quirelas. Aquarelas de Havaí, Pequim e Istambul cujas luzes a piscar ofuscam o querer lá.

No girar do compasso eu engulo o mundo, eu mudo, mudo por falar, falando com o Falo e mais, medeio a medida média, medíocre, mas Medeia medeia minhas medidas, meditando minhas madeixas deixadas nas achas ao longo do longo caminho em que me perco percorrendo cego por enxergar nas enxergas em que me deleito leitos de amor e mel.

No fim das contas, o colar partiu-se e as contas contaram-se mil na miríade dos contatos partidos pela partida precoce do que se queria eterno, mas retorna, e no retorno conta-se novamente com a nova mente que não nos mente, semente do que pode ser a mente, mas que se quer corpo, corpo quente, corpo presente, serpente que se coleia na torrente do se sentir presente, do Deus dádiva de luz ambígua.

E a ideia que existe na cabeça com todas as pretensões de acontecer não se permite esquecer, visto que aquece, prelúdio de sabatina, porque hoje não é sábado, mas seria seriamente sábio que sábado fosse, depois que o sapato furou-se no fluir do sabor do sábado passado. Ou era domingo? Talvez uma sexta… Cesta de sentires cintilantes que Saturno tolhe.

Mas se até os anéis se furtam, quero viver os furtivos tempos furtados, na diversão diversa do Tempo que se amolda, moldando o furto em trazer da fruta o prazer de ter o Tempo indisponível furtar-se em decorrer, currando a vida para dela extrair prazer. Inspirar a flor e expirar poesia, pois ia mesmo florar, que flore então conosco…

Comigo e com a Estrela. Estrela de luz que seduz e que comigo sonha no tardar do dia a luz que arde mais que o sol da própria tarde, em púrpuras puras do brilho da noite pura que purga e sonha o calor do dia e em seu frio aquece, mas esquece ela que amada é, sempre, e será, seriamente cuidada do cuidado louco que o Tempo cuida de lhe cuidar com a acuidade canhestra do menino gauche, que foi na vida ser mais que o Tempo, anjo torto que rima até o fim, mas sem rimar. No fim, quero comer.

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Um pensamento sobre “Antropos

  1. “mas esquece ela que amada é, sempre, e será, seriamente cuidada do cuidado louco que o Tempo cuida de lhe cuidar com a acuidade canhestra do menino gauche, que foi na vida ser mais que o Tempo, anjo torto que rima até o fim, mas sem rimar”.

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