Telhados

A Cidade se esmaecia sob o céu nublado, neblinas esvoaçantes, chuvisco leve. O guarda-chuva, pequeno, não dava para a mãe e o rapaz, que então cedeu a ela o uso do aparato.

Sobre os telhados, a vista urbana parecia diferente, embora ainda familiar. Eles caminhavam com algum cuidado sobre as telhas úmidas da chuva, procurando nos beirais uma forma de voltar às ruas. Cada borda, no entanto, descortinava apenas um abismo liso até o asfalto negro.

Continuaram os dois, saltando de teto em teto, buscando sempre um caminho que os trouxesse de volta ao rés do chão. Encontraram, enfim, junto à catedral no centro da Cidade, edículas configuradas em cascateantes degraus, que lhes permitiriam, afinal, chegar ao piso lhano da Urbe onírica.

O rapaz, todavia, declinou de continuar, vez que se lembrara de se haver esquecido, algo importante, em algum ponto do caminho. Retornou, então, sozinho, pelo trajeto agora familiar.

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Poço Escarlate

Riscos vermelhos sobre as peles brancas, presciência concretizada da configuração dos astros – sizígia de marte, vênus e lua. Aluados nos entregamos à explosão miriádica dos sentires múltiplos, vermelhos, brancos, multicolores.

Risos e lágrimas, marejares súbitos, à flor da pele, flor e estrela se unem ao tempo de um despertar. Desenhos multiplicam-se e o Sol vermelho se forma, cálido, canícula sobre um oásis raro em meio ao deserto branco de se desencontrar.

Na mansidão do encontro, a explosão se anuncia, breve, mas plena, energias alvirrubras na noite da alma, semente de um futuro possível.

De (s) espera

A pequena, no alto da torre fez-se pássaro e ali aguardava o amor. A guardava o amor? O tempo a arrebatou, condor gigante, e com ela voou até a estrela brilhante que os aguardava, numa noite morna de promessas mil.

Pássaro-flor, ela espaço, ele tempo, voaram ao encontro do horizonte onde brilhava a estrela única, triste da vida de esperar momentos que não vêm, num compasso de (s) espera contínua por rompimentos imaginários com roteiros que sabe de cor, couer, cores plúmbeas de uma paleta toda dela.

No acordar contínuo de uma noite que nunca se acaba, ela se acaba em (con) fusão estelar, matando átomos de sua vida para produzir uma luz que cega, mas brilha tão bela que o tempo a acolhe e nina, niña, ressonando do alto de seus travesseiros, adormecendo enfim na paz do reencontro de seus amores.

Novo dia, novas luzes, esperança, renovado o compasso continua de espera, mas agora a esperança nos furta os esses.

Passatempos

No caminho certo de uma saída incerta, mata-se o tempo com passatempos lúgubres, perguntas, questões, insegurança, olhos velados em diáfanas cortinas úmidas, lágrimas de tristeza e raiva, no limiar da vida onde loucamente chora o tolo.

No caminho certo de uma saída incerta, mata-se o tempo com passatempos lúdicos, imagens disparatadas, histórias sem sentido, sem sentires, apenas se vive o momento, carpe diem quam nula postera est, no limiar da vida onde loucamente gargalha o tolo.

No caminho certo de uma saída incerta, mata-se o tempo com passatempos lúbricos, aspas das pernas, pés entrelaçados que caminham, pois por tuas pernas longas horas caminhei em alternativas vivas, ora nativas, no limiar da vida onde loucamente sorri o tolo.

Certo pelo incerto, antes ser tolo e inseguro que sábio e sem futuro…

Avoado

O voo acabara de pousar. Sentado em uma das primeiras poltronas, fiquei observando o diálogo entre a comissária e o menino. Ele não queria descer do aeroplano. Após uma gentil insistência, a comissária desistiu e o autorizou a voltar para um dos assentos.

Curioso, fui perguntar a ela do que se tratava, ao que ela me respondeu que há muito ele não deixava as aeronaves, pois tinha mais medo de colocar os pés no chão do que de voar…

Agora, Aqui

Do primeiro sonho adolescente à última realidade adulta, espaçados no tempo, simultâneos no sentir presente, amores múltiplos a mente ocupam amantes de um Tempo novo – cada poro, cada pelo, cada centímetro de pele, cada arrepiar-se frio da memória cálida, ontem, hoje, sempre, cada suspiro, cada entregelar-se, cada entregar-se, cada morrer-se um pouco.

Dos primeiros passos pueris à última mazela envelhecida, diferidos no espaço, coetâneos no estar presente, sentires amplos o corpo ocupam achegos de um Tempo antigo – cada queixa, cada pranto, cada polegada de mágoa, cada sentir-se frio em um corpo ardente, ali, aqui, acolá, em todo lugar, cada lembrar-se, cada pensar-se, cada de si fugir, cada reencontrar de novo.

Des(a)tinados

Amei seus sorrisos, me apaixonei por suas lágrimas. Pés pelas mãos, palavras mal sucedidas, tentativas descomedidas, conversas que se entrelaçam, lágrimas que se respingam. No fim, talvez o Tempo cure as feridas, talvez as feridas do Tempo se curem, mas a vida segue, e seguimos todos sentindo mais a cada dia o sentir-se juntos, completos, corretos, con-certos.

Repletos de sentirmo-nos sentimo-nos sem tino algum, um sentimento que preste, não dentre tantos, mas um único, que a vida tece e tisna nossa tez em riscos calculados de pressões diuturnas para que juntos tracemos um destino célebre, celebrando a vida que vivemos juntos, conjuntos de amores que se espalham na vida conjunta.