Anjo

Qual anjo augusto que a angústia apedreja, almejei a lama que espera todo Homem, e acendi e chamei, brasa indelével, a fumaça ao meu peito, vez que as bocas que me beijavam eu beijei, brejeiro, mas sempre que as afagava algo fazia que as afastava, e voltavam. Me aconcheguei a minhas chagas, cheguei a achacar chamegos, chispas de lampejos de fagulhas de centelhas faiscantes, olvidando a vida por apego antigo, que me apegava à pêga antes também sentida.

Hoje inscrevo-me em mim as marcas que inspiro, livro-me do excremento escuro que escutei e vi, vivi, sinta!, cinta que cinge os sinos dobrados em soar sonâmbulo, ressoando-me a alma escrava que escreve a vida. Escravo, escrevo, e não mais me ressinto, recinto morto, trancado, destramelado que sou no sentir dos trancos que não pressinto.

Escravo de mim mesmo e de metáforas reutilizadas, escrevo hoje pelo prazer de ler e de ser amado-lido, tido como me tenho em deleite. Eu gozo, reescrevo-me no ato de morrer de novo, metido em estertores que imagino e sinto. Escrevo porque sinto que escrever escreve a escravidão livre escriturada em minha alma escrava, cingida ao sentir, liberta apenas da ilusão, ilação que faço do fazer-me livre.

(Resposta à pergunta “Por que você escreve?” no Ask.fm)

Anúncios

Um pensamento sobre “Anjo

  1. “Escravo, escrevo, e não mais me ressinto, recinto morto, trancado, destramelado que sou no sentir dos trancos que não pressinto”. Ser amado-lido.

Polissemize

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s