Saudade

Iludidos incapazes de romper as ilusões, mesmo quando sabidas, ressabiados buscamos reaproximar o passado e (re)vivemos sentires desde então sentidos, mas sem tino relembramos cores e reviramos dores, atores de uma tragicomédia clássica na qual somos peças que medeiam o girar da máquina que faz toar a vida.

E nessa toada toda, toda vida que vem se vai, e há que se cuidar daquilo que aqui já está, já à mão para se tocar, já à vista para se mirar, já ao ar para se escutar, já ao chão para se aprumar, e apuramos o sentir, que o Tempo, qual vinho, aprimora e afina, mas esgarça a tela e espaça e vela o que já se foi, deixando atrás apenas o chorar sentido de sentir-se só, em meio a sentires idos.

E nisso a saudade dói, a saudade aperta, na foto, no vídeo, na voz, mensagens longínquas que amanteigam a nata do sentir amargo. Irmãs do Tempo, lembranças se desfazem em fiapos fugazes, nuvens de diáfano algodão, mas retornam insuspeitas, súbitos marejares ensombreando o presente na dor de não se estar perto, dor de não ser lembrado, dor de saber perdidos os momentos de saber-se mais. Dor de quem foi, mas volta, e dor maior de saber sem volta a vida de quem se foi.

Cadeias de sentimento, memórias são mães das artes, nutrindo vida que se faz doce, mas seus traços amargam-se na dor de se esquecer e se lembrar. Semblantes lindos se apertam tristes, mas a vida segue e seguindo a vida cingimos esse sentir sombrio, solo fértil para sentires novos que aclamam vida nova aquecida em amor.

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Um pensamento sobre “Saudade

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