Labirinto ínfero

A catedral dominava a cena frente à praça central da Cidade. Conseguia ser ainda mais imponente que o paço imperial, localizado ali ao lado, na mesma praça. De arquitetura românica, a igreja impressionava por sua austeridade e robustez, grossas paredes de pedra trabalhada, minúsculas janelas – mais parecia um castelo medieval. Ao seu redor, um largo complexo de construções ancilares, casas paroquiais, centros de caridade, catecismos, ordens terceiras, até mesmo um colégio, administrado pelos jesuítas.

Já o paço, por si só, seria uma obra dominante em qualquer outro cenário, não fora ser ofuscado pela opulência religiosa. De inspiração gótica, quase renascentista, suas torres, arcos e abóbadas impressionavam sempre os visitantes. Internamente, seus imensos corredores e amplos salões, com pés direitos altíssimos e riquíssima decoração, faziam dele um museu de grande requinte.

Já tarde da noite, cheguei a uma das entradas laterais da casa nobre que, eu sabia, intuitivamente, estaria aberta. Empurrada, a larga bandeira de madeira cedeu, fácil, bem azeitada. Entrei, cerrando-a novamente atrás de mim. O silêncio era sepulcral, grossos tufos de poeira flutuavam levemente no ar daquela ala em desuso da edificação, iluminada apenas pelo luar que se filtrava pelos vitrais. A opulência do ouro velho nos frisos, do mármore bem trabalhado, dos candelabros gigantescos, tudo aquilo entre que me oprimia e maravilhava.

Caminhando lentamente, meus passos ecoavam, ora abafados, ora ampliados, pelas paredes fartamente decoradas, retratos de antigos figurões, a maioria sequer ainda lembrada pelas atuais gerações. Em alguns deles conseguia reconhecer, bem levemente, minhas próprias feições, olhos, narizes, bocas, bochechas…

Após um corredor que parecia nunca terminar, localizei as escadarias que desciam às entranhas do leviatã arquitetônico. Um, dois, três andares, perdi as contas. Já estava, com toda certeza, bem abaixo do nível das ruas. Sabia, no entanto, que a Cidade tinha ainda mais segredos subterrâneos que toda sua opulência superficial poderia indicar.

Aos poucos, as paredes deixavam de ser mármore liso e passavam a ser escavadas na pedra bruta do subsolo. Os amplos corredores davam lugar a passagens cavernosas, quase claustrofóbicas. Tirei do bolso uma lanterna, que me dava apenas um pequeno feixe de luz, suficiente, porém, para não me perder no labirinto extenso dos segredos ínferos.

Deixei as escadas e segui por um daqueles acessos, caminho tortuoso. Segui adiante por alguns minutos. Após um tempo, não sabia mais em que ponto da Urbe eu estaria. Apenas seguia caminhando, na expectativa de encontrar o desconhecido, aquele chamado que me levara, eras atrás, à Cidade que ora explorava.

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