Casa na Árvore

Construção de sonhos, fachadas de vidro, eucaliptos, teto, livros, caracóis, um estudo sobre liberdade.

Vida conjunta, mistérios de sedução, virtudes compartilhadas, tentações. Asas distantes, voos curtos.

Imagens solitárias, beleza conhecida, sugestões. Ideias fluidas, falas pontuais, graciosa oferta de licor.

Um tempo para o dia que passa por uma vaga noção de quanto o tempo leva para chegar. Acho que chegamos.

Sência

Um tempo de estar-se só em meio ao tempo de se ser sem medo, sem dúvidas, sem sempre nem nunca.

Um tempo de fazer-se ser sem se esquecer o tempo de se ser o já se foi que se será se sendo uma essência sida.

Um tempo de saber-se ser o que já se será sível, se sendo o que se é sempre nunca sem se ser sido.

A um tempo só se ser se sendo sido e sível.

Batráquio Memético

Mimetiza-se memetizando-se, esse Batráquio que reacende nossa Luz. Roda que gira, roda que se faz, roda que roda, ciranda familiar, um que são dois, e três, seis.

Mimetiza-se memetizando-se, esse Batráquio que brilha na Estrela. Roda que guia, roda que se perfaz, roda que enrosca, meios filhos, um que são dois, e três, seis.

Mimetiza-se memetizando-se, esse Batráquio que corre no Tempo. Roda esguia, roda que se refaz, roda que sobe, companhia, um que são dois, e três, seis.

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Corvo e Abelha, do outro lado do eixo batráquio, vértice em que giramos. Roda fugidia, roda que rarefaz, roda que dobra, distancia, um que são dois, e três, seis.

Origami descarrilado

Dobradura tão perfeita, o origami parecia uma flor real. Ou seria o inverso? Flor natural que de tão perfeita não poderia resultar do acaso, mas tão somente ser dobradura dos dedos de alguém? Dedos nas dobras, línguas que selam o destino, tempos de mudanças.

A menina que se desdobrava se queria borboleta, lépida, porém se fez mariposa e voou noite adentro, para longe da estrela e do tempo, para de lá mandar notícias de desalento.

Contrabandista de corações, em cada partida levava mais um pedacinho. Na madrugada, no entanto, voltava sorrateira. Não contente com o que já levara, tomava também alegria e esperança, deixando apenas tristeza e irritação, para devolvê-las, revolvê-las, na volta de uma frase.

Inconstância constante, isso é o que resta, restos de lençóis, toalhas, cheiros e pêlos, gotas de sangue, dobraduras flexíveis que conjugaram tempo e estrela numa flor que se dobrou sobre si mesma.

Flor fugidia, escoou paixões, irrompeu-se em cacos e fragmentos, reações sanguíneas. Idas e voltas, retornou ao ponto de partida sem sair da roda viva onde revolvia-se, roedora desatinada.

No fim, tudo se recobra e redobra, amores não sentidos, paixões fugazes, dúvidas recorrentes, inseguranças contínuas, quebras de confiança. Montanhas (ou seriam roletas?) russas, melhor parar, ou acelerar? Descarrilou-se.

Solidão, dão, dão.

Sonhou-se estranho, estranhas entranhas sonhavam-se expostas, postas ao sol, sombras de um sonho desperto, e decerto sonhavam-se sons, soavam soezes na solidão, dão, dão.

Mãos que se dão, mãos que se são, são mãos que se sonham, mãos. Manta que cobre, ferro e carvão, mancha sombria, sombras de entranhas, estranhas sanhas, solidão, dão, dão.

Marcas insones, sonhos em vão, vão-se em desvãos, sombrios sabores, santos senhores, saberes vãos, desvaem-se em sons, sombras de amor, sabres, solidão, dão, dão.

Café

Fazendo-se um personagem fictício para ser ele mesmo, o Gênio, pensante e genioso, saiu da garrafa, ingênuo, para tomar café, mas com o café foi tomado.

Num tempo que não existia, geniosamente se fez tempo para que o tempo se fizesse. Fez-se a luz, fez-se o tempo, brilha, brilha a estrela que nunca dorme, estremece.

Pois se a flor que outrora não fora, mas é, à luz de uma estrela que desde sempre brilhou, e brilha, da não existência veio a ser, feneceu e refloriu, assim também a estrela redobrou seu brilho, trilho de luz que da garrafa trouxe o gênio, a tempo para o café.

Chão

Loucos numa casa de loucos, vivemos roucos de não gritar, gripados de um vírus simples, mas infalível, que nos faz amar o impossível, impassíveis frente à louca roda de um porvir solúvel, líquido e mal descrito em gritos que nunca vêm, não vêem qual devir está por vir, nem quando, ou quanto, dias e meses que se arrastam, eu e você à mesa, mansa, manca, indisponíveis, mas dispensáveis, impensável futuro que já se fez ontem. Fenecendo em brasas, chama de um velho chamado, cinzas, tempo que escurece, nuvens, não vens, não vês, não vestes expectativas simples, amostras de um amor sanguíneo, típico, tipificado, exsangue agora de vigor esponte numa topologia chã.