O VERDADEIRO DESAFIO DO SACERDÓCIO

isis jovem                                                                                                                          Mavesper Cy Ceridwen

Quando as pessoas buscam ingressar na Wicca estão preocupadas com uma coisa só: sua iniciação. Algumas de um ponto de vista menos esclarecido e mais superficial, se preocupam com iniciação porque é um requisito, do tipo que é  ter diploma de alguma coisa para exercer uma profissão. Outras pessoas, mesmo quando mais esclarecidas, ainda assim estão focadas na iniciação, mas daí já tem uma idéia mais clara sobre a Iniciação ser um processo de transformação de vidas, o marco inicial de uma Vida Sacerdotal.

E as pessoas, mesmo as mais esclarecidas e que vão se tornando praticantes experientes, quando neófitas acham que o desafio maior é conseguir se iniciar. Encaram mesmo o rito iniciático como uma colação de grau, algo que se esgota em si mesmo e da uma qualidade que a pessoa jamais perderá. Será verdade?

Claro que não: o enorme desafio do Sacerdócio se chama CONTINUIDADE, ou seja, você vai mesmo persistir por toda sua vida nessa escolha de ser uma Sacerdotisa ou um Sacerdote? Muita gente, muito entusiasmada nos primeiros anos, começa a perceber que o desafio é grande demais quando as Rodas começam a se acumular.

A primeira coisa que pesa é que SACERDÓCIO É SERVIÇO, contínuo e permanente aos Deuses, com todas as suas qualidades e o máximo de seus esforços. Nem sempre a Deusa exige isso todos os dias, mas muitas vezes exige sim, e por grandes períodos.

Pessoas que têm vocação sacerdotal sabem – ou deveriam saber – que sacerdócio se traduz em serviço. De muitos tipos e maneiras, mas sempre a inequivocamente SERVIÇO. Pode ser somente na sua cozinha ou em grandes ritos públicos, pode ser somente meditando ou tendo vocação para dar aulas… COMO o serviço é feito, somente a Deusa decide e isso muda de tempos em tempos.

Mas há algo que é comum a toda Sacerdotisa e Sacerdote: uma hora repetir os ritos toda lunação e sabbats, manter a roda girando, atender pessoas que nos procuram, servir o tempo todo pesa. A vida pessoal sofre, o lazer é deixado de lado, o ócio é sacrificado, a convivência familiar diminui.

E não só o tempo que o Sacerdócio demanda é o problema. Há um problema maior: as vezes a gente desanima. O que antes dava muito prazer – armar altares, preparar feitiços , fazer meditações – não dá mais tanto prazer ou parece um fardo. Tudo fica sem graça, tudo parece difícil e não vemos resultados.

Isso não ocorre só com Dedicados, ocorre até comigo e com gente muito melhor e mais velha na bruxaria do que eu. Sabem por que? Porque “That ‘s Life”.

Porque a Roda da Vida tem CICLOS de desânimo e entusiasmo e nosso Sacerdócio, como TUDO que existe também tem. Uma hora estamos em cima, outra estamos embaixo. Como a Deusa me disse certa vez, não é difícil entendê-la, porque Ela na verdade tem uma só lição: A LIÇÃO DOS CICLOS.

Então, quando estamos em baixa de entusiasmo, temos que compreender que é assim mesmo e persistir, porque a Roda vai girar e nos levará a outro ciclo de grande prazer com nosso sacerdócio. Basta esperar e aproveitar as lições e dadivas que o desânimo esconde e que somente ele pode nos revelar… Isto é, SE  E SOMENTE SE  não esquecermos do porquê começamos tudo isso.

Lembra do Chamado? Lembra do dia em que você olhou a Lua e viu nossa Mãe? Quando olhou a árvore e viu o Green Man pela primeira vez? Olhou o Sol e viu o Senhor Chifrudo? Lembra?

Em uma fase muito difícil do meu Caminho, lá no começo, uma noite de esbat eu estava muito triste. Era novembro e eu acabara de sair de um grupo que amava muito e em que estivera alguns anos. Olhei a Lua na minha janela do apartamento, cheia e linda, e as minhas coisa ritualísticas de Ísis sobre a cama esperando o início da celebração do esbat. Há  cinco rodas eu celebrara em grupo, essa seria minha primeira celebração sozinha.

Tracei o Círculo, muito triste, pensando que o meu antigo grupo estava começando o mesmo rito naquele horário.  Fiz os ritos, orações e comecei a meditar. Havia programado meditar sobre o sacerdócio, mas na verdade comecei a ir a uma vida passada , em Roma. Vi a cidade claramente e me vi fazendo compras de frutas em um mercado, acompanhada de outras sacerdotisas do templo de Ísis. Vestíamos linho branco e era escoltadas pela guarda do templo. Lembro do sabor das uvas pretas e pêssegos, lembro do sol brilhando na casca das frutas, lembro com nitidez cada recanto e pessoa  daquele grande mercado.

Depois, a Visão mudou e me vi menina, de uns 11 anos. Vestida de branco, com uma toga curta e acompanhada de mais umas quinze meninas da mesma idade. Entraríamos no Templo pela primeira vez, onde seríamos recebidas como aprendizes e depois noviças. A instrutora nos recebeu no pátio externo, e nos conduziu, mas alguma coisa chamou minha atenção e fui para a direita, enquanto elas entravam com a instrutora. Ao lado do jardim magnífico com um tanque ao centro, estava uma estátua de Ísis Menina. Eu a olhava fascinada, porque achava, com minha visão de criança que Ela era muito parecida comigo mesma. E quando olhei a estátua, quando meus olhos encontraram os Dela, me apaixonei perdidamente, me perdi dentro da imensidão que é Ela…Conheci Ísis pela primeira vez e meu coração se inundou de um amor indescritível, algo sem comparação, sem rivalidade.  Nada podia ultrapassar aquele sentimento. Amei Ísis desde aquele momento e soube que toda minha vida seria dedicada a ela com amor. Não havia para mim mais nem vislumbre de outro modo de viver.

Nessa hora, escutei a Voz de Ísis e ela me disse: “Lembre-se sempre,em todo seu sacerdócio,  e em qualquer vida, que esteja onde você estiver e faça o que fizer a única coisa que importa é que você mantenha no seu coração a consciência desse momento em que você me viu pela primeira vez e me amou. Se ele nortear sua vida, nada pode estar errado. Vocês erram ao se afligir sobre entrar ou sair em grupos. Vocês não estão neles por seu desejo e vontade, mas tão somente porque é o melhor para mim e meu serviço. E seja sozinha ou acompanhada, esteja onde estiver se você mantiver no coração seu amor por mim, nunca errará”.

O verdadeiro desafio do Sacerdócio é esse: seu amor à Deusa e ao Deus vencerá ano após ano os ciclos de desânimo, preguiça, problemas e medo? Você os compreenderá e aceitará serenamente ( mesmo reclamando, porque ninguém é perfeito) como parte de seu serviço e aprendizado? Que cada um responda com sua vida.

Vivendo por Maat,

Mavesper Cy Ceridwen, que também os Deuses conhecem como Mirabilis Cy An Kether

Escrito por Mavesper Cy Ceridwen

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OS DEUSES NÃO DEVEM EXPLICAÇÕES

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                                                                               Mavesper Cy Ceridwen

Uma dúvida muito comum  para novatos que começam a se aproximar da Wicca é sobre o pós-morte. Como a Wicca o explica? O que nos acontece depois da morte? Por que temos as vidas que temos? Cremos em evolução da alma como princípio de expiação de faltas cometidas em vidas passadas? A reencarnação existe para que nos aperfeiçoemos?

As respostas para essas perguntas geralmente são muito simples: desde que se creia em retorno da alma, porque a espécie humana não tem nenhum tratamento especial na natureza e volta em seus descendentes como qualquer outro ser vivo, das bactérias às sequóias, passando pela baleia e o cajueiro; desde que não se veja a “evolução” como um conceito ligado a religiões de salvação, há uma gama muito ampla de respostas cabíveis sobre isso na Wicca. Geralmente, desde que dentro de parâmetros pagãos, desde que se creia em retorno, se pode acreditar em muitas formas de como esse retorno ocorra ( note bem: mantendo parâmetros coerentes com o paganismo).

Mas o propósito deste texto não é discutir o pós-morte na Wicca, mas sim o que ocorre quando um wiccaniano experiente responde a um neófito que o pós-morte não é uma preocupação central em nossa religião. Há os mais diversos tipos de reação, no mais das vezes reações assustadas ou agressivas do tipo: “ Mas como assim vcs não se importam?? Como se explica isso ou aquilo? Vcs não querem explicações para a morte? É preciso entender porque a morte ocorre, como é depois, é preciso ter um sistema lógico de recompensas e castigos que explique porque estamos aqui….”

Gente, gente… se vcs desejam ser pagãos precisam crescer um pouco nesse tema. Para um pagão NADA QUE HÁ NO UNIVERSO PRECISA DE EXPLICAÇÕES RACIONAIS EM TERMOS HUMANOS. A Deusa e Seu Consorte não são pessoas, logo a Divindade, o Todo,  tem razões que jamais conheceremos e age por caminhos que muitas vezes nem temos condições de compreender. Aliás, nem temos condições de compreender o que são os Deuses em sua plenitude, porque eles não obstante sejam cada um de nós também são maiores que  a soma de todos nós…

Pagãos não buscam na sua religião explicações para nada. Não precisamos disso. Vivemos simplesmente.

Sabemos que o pós-morte existe, e que o retorno também, simplesmente porque são fatos da natureza. Não existe uma vida espiritual “superior” à vida material, simplesmente porque espírito e matéria são igualmente valiosos e esta vida é uma recompensa em si mesma.

Daí vem os questionamentos clássicos ( a maioria deles oriunda do kardecismo), por exemplo: “Por que alguém nasce com um braço defeituoso?” . As pessoas estão acostumadas a ouvir respostas espíritas, do tipo “Fulano nasceu com deficiência física porque na vida passada assassinou a mãe com aquele braço que agora é deformado.” As pessoas se sentem seguras com essas crenças, elas se sentem tranquilizadas pensando “Eu não vou nascer aleijado na próxima vida, porque não matei minha mãe”. Ou então: “Ah! Agora sim! Eu entendo racionalmente porque o Universo é como é!” Meras falácias. Traduzindo: as pessoas usam crenças como essa no pós vida racionalmente justificado para ter menos medo da morte e da próxima vida ou para satisfazer necessidades de racicíonio.

Um pagão responde essa mesma pergunta assim: “ Como há frutas ou animais que nascem deformados, às vezes há mal formações em pessoas. Isso não tem motivo nenhum, é apenas uma expressão da natureza, tão válida como qualquer outra e NÃO TEM NENHUMA EXPLICAÇÃO EM TERMOS HUMANOS. Simplesmente é assim porque é natureza e ponto final”.

Pessoal. É hora de crescer.

– Não, os Deuses não nos devem explicações.

– Não, o pós-morte, bem como qualquer outro fato do universo não precisa de explicações racionais em termos humanos.

– Não, não há nenhuma incoerência em apenas viver e gozar a vida, sem preocupações sobre retribuições nas próximas ( o que não significa dizer que se advogue um “vale tudo “ de atitudes. A ética pagã é exigentíssima, especialmente pela crença na Grande Teia – todos estamos interligados e o que fazemos afeta o Todo e retorna a nós).

A única forma em que podemos empregar a palavra “evolução” para definir o que o processo reencarnatório/ retorno  faz com as pessoas, e com tudo o mais que existe, é se entendermos esse termo como acúmulo de experiências e conhecimento. Nada a ver com evolução como “aperfeiçoamento” do que já é perfeito. Somos os Deuses vivos e respirando no mundo. Perfeitos em nossa eterna imperfeição, como eles mesmos o são.

Como diz a música da Enia: “You don’t need a reason.. let the day go on and on…”

( Vc não precisa de uma razão… deixe o dia seguir, seguir…- “Wild Child – by Enia)

Bênçãos de Dannu, a Senhora do Caldeirão Que Dispensa Explicações,

Mavesper Cy Ceridwen

REQUISITOS PARA SER UM INICIADOR OU LÍDER DE COVEN

( Texto de Mavesper Cy Ceridwen e Naelyan Wyvern)
Iniciação

Iniciação

 
 
O que é necessário para alguém ser um@ Iniciador@ ou liderar um coven?

1) Conhecimento racional amplo sobre história da Arte, panteões, composição de rituais e feitiços e treinamento mágico; energia e seu comportamento, fenômenos paranormais, e técnicas e ciências afins da bruxaria, tais como oráculos, astrologia básica, cristaloterapia, radiologia e uma grande número de outras técnicas que podem ser auxiliares do trabalho do brux@.

2) Dominar técnicas de magia avançada, como criação de aliados mágicos, defesas e guerras mágicas, vivência ampla nos diversos mundos astrais, criação e destruição de seres energéticos, magia de conservação da vida, magia de contenção, transferência de consciência ( só para citar alguns poucos exemplos).

3) Profunda vivência da Deusa e do Deus em suas muitas faces, reconhecendo no seu dia a dia as lições dos Antigos.

4) Ser, há diversos anos, instrumento dos Deuses Antigos no Mundo, operando seus dons: cura, banimento, limpeza e selamento de ambientes, magia simpática, magia temporal, magia climática, magia herbária, magia de velas, magia de nós, magia de mudança de formas, magia de comunicação, magia de portais, magia de deslocamento, magia de música e dança, magia de comunicação energética, entre outras.

5) Compreensão profunda das bases do paganismo moderno, de seu desenvolvimento histórico e a história da Arte, especificamente, suas diversas vertentes e a Wicca especificamente.

6) Compreensão amplíssima dos ciclos da natureza em relação a seu corpo e fenômenos que levam à compreensão da Deusa, do Deus e de cada elemento, bem como a noção de integração ao Todo. Notem: para ser um iniciador não é preciso somente saber disso, viver isso, mas também saber como mostrar isso aos outros e facilitar-lhes a experiência que ele mesmo já teve;

7) Ter um auto-conhecimento já bastante avançado e ser uma pessoa madura, equilibrada e consciente de que iniciar e liderar outros EXIGE um dom específico de ensino, um compromisso maior de entrega e serviço ao iniciando, uma vocação específica para servir à Deusa desta maneira.

8) Saber que o trabalho de integração da sombra e a ação da Deusa Negra em sua vida é interminável e exige sempre empenho, coragem e centramento.

9) Ter consciência de que liderar um círculo ou coven não é exercer poder sobre ninguém, mas ser o mais humilde servidor de todos os que viverão o sacerdócio sob seu comando (lembrem-se: no rito de iniciação na Wicca é o iniciador que se ajoelha aos pés do que está sendo iniciado…).

10) Estar apto a resolver problemas mágicos que, não raramente, colocam em risco a vida das pessoas que compõem o grupo e seus entes queridos. Ou seja: quem não se garante e não pode garantir a segurança absoluta de um grupo todo não deve se meter a liderar nada.

11) Ser capaz de atender problemas de pessoas que busquem ajuda do coven em nome dos Antigos, por exemplo, ser capaz de conduzir um exorcismo, tornar segura uma casa assombrada ou controlar um fenômeno poltergeist…Facinho, né? Tarefas como essas chegam aos covens de verdade freqüentemente…

12) Ser capaz de compaixão profunda por seus dedicados, compreendendo suas dificuldades e acolhendo seus problemas em sua vida como se fossem dele mesmo. Iniciar alguém é formar com esse alguém um laço que perdurará por toda a vida, arrastando consigo todas as demais relações e energias do líder do coven /iniciador.

13) Estar apto a lidar com pessoas em surtos psicológicos de variados graus de intensidade, pois o processo de auto-conhecimento pode levar ao desespero e à doença mental/emocional muitas pessoas com egos mais fracos

14) Saber administrar os problema de relações pessoais e conflitos de coven, guardando o cumprimento estrito do Perfeito Amor, Perfeita Confiança e auxiliar, nessas vivências, o crescimento pessoal de cada membro do coven. Aprender a não fugir de confrontos, ouvir críticas e acolhê-las para refletir e crescer ainda mais.

15) Saber identificar pessoas-problema antes que estas detonem o grupo e arcar com o ônus de exclui-las.

16) Saber perceber claramente a mente-grupo que está sendo formada no círculo ou coven e saber identificar pessoas de energia compatível com essa mente-grupo para aceitá-las no círculo ou coven. Saber perceber quando uma pessoa absolutamente NÃO é compatível com um determinado círculo/coven.

17) Saber colocar o bem estar do grupo acima do bem estar individual de qualquer membro que não seja compatível com o grupo ou que esteja causando problemas.

18) Saber identificar as potencialidades dos diversos membros do grupo, levando-os a fazer aquilo que fazem melhor.

19) Ter uma vida ordenada em todos os seus aspectos, afinal, você será o exemplo que os membros do círculo/coven vão tentar seguir.

20) Perceber a motivação básica de cada membro para estar no grupo, ajustando os trabalhos de forma que cada um receba um pouco do que quer e de que precisa.

21) Saber dividir tarefas e delegar responsabilidades para que todos se sintam úteis e necessários. Saber cobrar, com rigor se preciso, se essas tarefas não forem executadas.

22) Saber que a liderança de um círculo/coven na Wicca não é uma democracia, mas também não é e não pode ser uma ditadura. Escreva as regras de funcionamento do círculo/coven e garanta o acesso a elas a todos os novos membros, para que eles saibam exatamente o que esperar do grupo no qual estão entrando.

23) Saber respeitar a individualidade da devoção de cada membro, a forma pela qual cada um se conecta com a Deusa e o Deus;

24) Ser absolutamente fiel à sua palavra em tudo o que diz respeito ao círculo/coven. Se os membros do círculo perceberem que sua palavra não vale nada, como poderão confiar a vida mágica deles a você?

Bom, certamente, essa lista elaborada às pressas ainda poderia conter muitas outras exigências para alguém ser líder de coven, seja ele auto-iniciado ou iniciado em uma tradição. Muitas coisas dessa lista se conquistam durante a vida e tradição alguma pode dar a alguém se esse alguém já não as tem…

O remédio para evitar ambos esses erros – quer o fundamentalismo anti-auto-iniciação, quer a auto- iniciação falsa dos apressadinhos é um só: correta informação, educação, senhores!

Assim, que os candidatos a liderarem grupos (covens ou círculos) vejam a lista acima e saibam que ela é só um exemplo rápido e – pensem: estou apto a fundar ou liderar um coven ou um círculo? Quem tem cacife que se habilite. Quem não tem, e sentir vocação para tanto, que trabalhe muitíssimo e o obtenha – seja dentro, ou seja fora das tradições.

E mais, só pra terminar de assustar os incautos mesmo: para tentar fundar uma Tradição os requisitos são ainda maiores… uma hora falamos disso.

Beijos, bênçãos de Danu, a Grande Iniciadora, 🙂

 

WICCA E O PÓS MORTE

Por Mavesper Cy Ceridwen

Muitos novatos perguntam sobre a pós-vida para wiccanianos. Geralmente, as respostas se centram no fato de que todos nós acreditarmos em eterno retorno, ou reencarnação. Isso é referido por wiccanianos de uma forma metafórica, mito-poética, expressa geralmente nas seguintes afirmações:
“Wiccanianos acreditam que quem morre volta para o Grande Caldeirão da Deusa, de onde renascerá eternamente”.
OU

“Wiccanianos acreditam em Summerland, a Terra Onde Sempre é Verão, onde ficam um tempo para de lá depois retornarem”.
De que forma isso ocorre, qual o mecanismo, não é uma preocupação da Wicca, E, pois, fica na esfera de crença individual de cada praticante a decisão sobre suas convicções pessoais nesse sentido.
Pode haver – e provavelmente há- uma diversidade tão grande de respostas quanto são diversos os praticantes de Wicca. E isso para nós é perfeitamente normal. Não conheço – posso até estar enganada nisso, uma vez que ninguém conhece todas as Tradições – mas não tenho notícia de nenhuma Tradição de Wicca que dite a seus adeptos de que maneira eles devem crer no pós-morte, mas tão somente que creiam em retorno ou reencarnação.
Estou utilizando as expressões “eterno retorno” ou “reencarnação” até aqui, porque há algumas pessoas que se apegam a discutir diferenças entre esses conceitos, que, segundo creio, para bruxos nem faz muito sentido. Mas é preciso que passemos por uma pincelada em ambos, e mais algumas coisas, para vocês terem uma idéia da imensa flexibilidade que nossa religião comporta nesse aspecto. Prossigamos.
UMA PALAVRA AOS NOVATOS:
Para os novatos, explico uma coisa muito importante para compreender o que direi a seguir: LEMBREM-SE QUE WICCA É PAGANISMO, e que é incompatível com a Wicca uma idéia de Universo antropocentrado (que é uma idéia central das religiões retilíneas, patriarcais).
Ou seja: Tudo o que existe constitui o Corpo da Deusa. E Ela não distingue entre suas células, como uma Mãe não distingue entre seus filhos. O que é mais importante em seu corpo: uma célula do fígado ou uma do joelho direito? Elas podem ter funções diferentes, mas cada uma, por si só, é única é importante naquilo que faz. Assim é a espécie humana: para a Deusa tão importante quanto qualquer ameba ou qualquer sistema solar… PARA SER PAGÃO É PRECISO PERDER A VISÃO DE SUPREMA IMPORTÂNCIA DO HUMANO NA CRIAÇÃO.
O antropocentrismo religioso é calcado numa visão Patricentrada de Universo. Foi o Deus Pai Todo Poderoso das religiões dominantes que criou o homem à sua imagem e sujeitou a ele todas as outras criaturas. Para um@ brux@ essa crença nada mais é que PRESUNÇÃO E VAIDADE DA ESPÉCIE HUMANA.
Aos novatos um segundo lembrete: QUANDO ESTIVERMOS FALANDO DE WICCA, LEMBREM-SE QUE NÃO É PONTO CENTRAL DE NOSSA RELIGIÃO SE PREOCUPAR COM O PÓS-VIDA. Não nos preocupamos com outra vida, de perfeição e proximidade da Divindade (como buscam os cristãos, por exemplo) porque A VIDA QUE TEMOS HOJE JÁ É PERFEITA EM POTENCIAL (os desequilíbrios e insatisfações são pontos de vista individuais) E COMO JÁ SOMOS OS DEUSES É IMPOSSÍVEL IR PARA MAIS PERTO DELES… Notem: vocês já são a Deusa, não precisam “melhorar” nada para ser o que já são por direito de nascimento e essência.
Creio que é MUITO IMPORTANTE que os novatos percebam que se tornar brux@, tornar-se pagão implica, necessariamente, MUDANÇA DE PARADIGMAS, mudanças no modo de encarar a realidade e como ela funciona. Nesta mudança de paradigmas é preciso DEIXAR DE VER A REENCARNAÇÃO OU EETERNO RETORNO COMO UM SISTEMA DE RECOMPENSAS E CASTIGOS, como é a base de religiões como o Kardecismo. Pode nem parecer, mas a mentalidade ultra-reencarnacionista de Kardecistas influencia quase que como um todo o imaginário religioso do povo brasileiro.
Essa crença Kardecista, de que Reencarnação é um sistema de expiação (os kardecistas costumam dizer que a Terra é um planeta “espiritualmente atrasado”, um planeta de expiação de “karma pesado”, que o corpo material é “descartável”, só importando a alma etc etc) PRECISA SER ABANDONADA POR QUEM DESEJA SER REALMENTE PAGÃO. Como para um pagão o corpo material tem exatamente a mesma importância que a alma (e já adianto que uso alma e espírito como sinônimos neste texto, pois as distinções que outros sistemas de crença fazem é completamente desimportante no paganismo), essas noções de que a matéria é “menos” são completamente estranhas à wicca.
ESSA NÃO É MAIS A MITOLOGIA QUE ORIENTA NOSSAS VIDAS. Nas mitologias que cremos, a Deusa (ou a Deusa e seu Consorte) criaram o universo em perfeita conexão e equilíbrio: Ela cantando a Canção de Tudo que existe, Ele dançando a Dança Espiral do Êxtase.

PRIMEIRA GRANDE POLÊMICA: REENCARNAÇÃO OU ETERNO RETORNO?
Antes de passarmos a tentar descrever as crenças mais comuns entre wiccanianos sobre esse assunto, é preciso perceber que há diferenças entre os termos: reencarnação, eterno retorno e alguns outros correlatos.
Definindo com algum rigor, REENCARNAÇÃO é termo usado para denominar o fenômeno que consiste em um ser humano morrer, sua alma subsistir em algum plano de existência e depois retornar como ser humano novamente.
Um outro termo a definir seria METEMPSICOSE, fenômeno pelo qual um ser humano, após a morte, poderia voltar a viver como outro ser, como uma planta ou um animal não humano.Segundo o dicionário Houaiss, Metempsicose é:
1)movimento cíclico por meio do qual um mesmo espírito, após a morte do antigo corpo em que habitava, retorna à existência material, animando sucessivamente a estrutura física de vegetais, animais ou seres humanos;
2) doutrina que professa esta crença, difundida pelo misticismo especulativo do orfismo e pitagorismo, e adotada por correntes filosóficas como o empedoclismo, platonismo e neoplatonismo [Concepções semelhantes encontram-se em religiões orientais como o budismo ou o hinduísmo]
Etimologia
gr. metempsúkhósis,eós ‘passagem da alma de um corpo para um outro’, de metá ‘mudança’ + v.gr. empsukhóó ‘animar’, este de émpsukhos,os,on ‘que tem o sopro em si, animado’, e de en ‘em, dentro’ + psukhê,ês ‘sopro’, pelo lat.tar. metempsychósis,is ‘id.’; AGC vê interveniência do fr. métempsycose ‘doutrina segundo a qual uma mesma alma pode animar sucessivamente vários corpos’; ver met(a)- e psic(o)-; f.hist. metempsycose, metempsycosis
MAS, note-se que a metempsicose implica – no mais das vezes – a crença em que a sucessão de vidas como pedra, planta, animal irracional e humano era um sistema linear, e recompensatório. Por exemplo, no budismo ou no hinduismo, acredita-se na superioridade humana, então, antes de conseguir o prêmio de ser um humano, a alma passaria por estágios como pedra, planta e animal. No hinduismo esse é um dos motivos pelo qual a vaca é sagrada, já que ela seria o último estágio de animal irracional em que uma alma encarnaria imediatamente antes de encarnar-se humana. Esse sistema religioso também acredita que um humano, de acordo com seus atos, pode involuir e tornar-se novamente animal ou planta devido seu comportamento. Nestes sistemas, já há a visão não-pagã de eu ser humano e MAIS do que ser animal ou planta, que é MENOS. É essa gradação que coloca o humano acima das demais criaturas que impede seja a metempsicose “retilinea”, chamemo-la assim, de ser compatível com o neo-paganismo.
NOTEM que, porém, de certa forma, reencarnação e metempsicose podem ser crenças coexistentes no paganismo moderno, desde que se retire da metempsicose a idéia de que há uma gradação de importância, que coloque o ser humano como topo de uma escala evolutiva. Chamemos a esta metempsicose “não retilínea”.
CRER QUE O SER HUMANO ESTÁ NO TOPO DE UMA ESCALA EVOLUTIVA, como já dissemos, É UMA CRENÇA ANTI-PAGÃ, afinal, SE NÃO TEMOS UM SISTEMA DE CRENÇA ANTROPOCÊNTRICO é impossível, é totalmente incoerente acreditar nessa escala evolutiva.
Em quais dessas coisas acredita um Wiccaniano?
Creio que a melhor resposta seria: EM QUALQUER DELAS. E por que?
Ora, sabemos que somente precisamos acreditar que o Universo, o Corpo da Deusa, é cíclico, que nada nele se perde, nem desaparece, apenas muda eternamente, na dança entre matéria e energia, na interação entre a Deusa e o Deus de Chifres. ESTA CRENÇA È UM DOS PILARES DA RELIGIÃO WICCA.MAS, o MODO pelo qual isso ocorre é matéria a ser livremente decidida por cada praticante, mesmo porque é questão meramente de crença pessoal.
Tanto faz que um wiccaniano creia que voltará sempre como ser humano (REENCARNACIONISTAS), ou como ser humano, animal ou planta (REENCARNACIONISTA QUE ACEITA A METEMPSICOSE – desde que esta seja “não retilínea”), ou como ser humano, animal planta e coisas inanimadas (OS QUE CRÊEM NO ETERNO RETORNO).
COMENTÁRIOS SOBRE TEXTOS TRADICIONAIS:
Alguns gostam de argumentar com o texto “MITO DA DESCIDA DA DEUSA”, de autoria de Doreen Valiente, para afirmar que a Reencarnação (entendida estrito senso como volta depois da morte apenas como outro ser humano) deve ser, literalmente, um credo wiccaniano.
Examinemos esse texto, chamado “Mito da Descida da Deusa”, que narra a descida da Deusa ao submundo, para encontrar o Deus morto. Em certo trecho se diz:
“Eles amaram e se tornaram um, pois há três grandes mistérios na vida do homem, e a magia os controla todos. Para realizar o amor, tendes que retornar novamente no mesmo tempo e no mesmo lugar daqueles que são os amados; e tendes que encontrá-los, conhecê-los, lembrá-los e amá-los de novo” (…).
Alguns interpretam esse trecho como se tratasse de Reencarnação, estrito senso (uma pessoa só retornaria como outra pessoa humana). Embora isso seja até plausível, temos que lembrar duas coisas antes de concordar com essa afirmação:
1) O texto, conquanto possa ter sido de uma inspiração ímpar, não é um texto “oficial” de nossa religião. Afinal, pagãos não podem ver em seus textos verdades absolutas. Não temos Bíblias, nem textos oficiais;
2) O texto é mito-poético, porque essa é a forma da linguagem adequada a tratar dos Mistérios. Quando se fala dos Mistérios (O que são os Deuses? Quem somos, de onde viemos, para onde vamos? Por que o Todo existe e como funciona?) não se usa linguagem literal, pois a razão humana é muito pobre para compreender a totalidade universal. A linguagem não pode restringir os Mistérios, assim, o correto para falar deles – e assim o fazem todas as religiões pagãs e neo-pagãs – é usar algo que ultrapassa o estritamente racional e cartesiano: o mito, a narrativa fantástica, as artes e, especialmente a poesia.
Exatamente por estarmos no campo do mito-poético é que não podemos confinar as formas de interpretação nesta ou naquela visão individual. Assim, a “reencarnação” descrita no texto de Doreen Valiente, a nosso ver, não é a reencarnação estrita de humano/humano, mas sim o ETERNO RETORNO.
ETERNO RETORNO é expressão empregada para definir o processo pelo qual todos os seres da natureza voltam à vida, depois de suas mortes. A crença no eterno retorno implica que tudo o que está vivo voltará a viver depois da morte, porque não existe nada que rompa o processo universal dos ciclos: NASCIMENTO – VIDA – MORTE – RENASCIMENTO.
O ETERNO RETORNO é a mais abrangente forma de referir-se à volta à vida de tudo aquilo que morre. O grão retorna como planta, o animal em seus descendentes, o ser humano como ser humano. Isso seria simples e obedeceria à noção pagã de que as coisas são como são porque a natureza é assim, e ponto. A natureza, a deusa, não nos deve explicações e não é confinada a conceitos compreensíveis por pessoas humanas.
MAS, observemos que crer no Eterno Retorno não é incompatível com a crença na metempsicose não evolutiva. Será que um ser humano volta como águia, tronco de árvore ou como um cometa? Pelo que se sabe, isso seria possível, uma vez que não sabemos como a Deusa trata o conteúdo do caldeirão para o qual voltamos. Será que ela separa em categorias os seres? Será que junta tudo e os recombina? QUEM PODE DAR A RESPOSTA CORRETA? Obviamente ninguém.
Assim, É POSSÍVEL PARA UM PAGÃO CRER EM REENCARNAÇÃO ESTRITO SENSO, EM METEMPSICOSE NÃO EVOLUTIVA/retilínea OU NO ETERNO RETORNO. Todas essas maneiras são compatíveis com uma visão pagã wiccaniana de mundo.
ANÁLISE DA QUESTÃO DA “EVOLUÇÃO” REENCARNATÓRIA:
A maioria das pessoas, imbuída de valores cristãos kardecistas crê de uma maneira peremptória em um sistema reencarnatório que expressa um plano divino. Este plano seria feito em função de que, ao criar os humanos, o Deus Cristão (em que crêem os kardecistas) – que é transcendente é MAIS que a humanidade – os colocou em um sistema de provas e recompensas, que visava afastá-los de valores materiais, que são considerados grosseiros e inferiores – e aproxima-lo mais da natureza Divina, que seria exclusivamente espiritual.
SOMENTE NESSE SISTEMA DE CRENÇAS E DENTRO DA MITOLOGIA CRISTÃ É QUE SE PODE FALAR EM EVOLUÇÃO COMO UM SISTEMA DE RECOMPENSAS E DEMÉRITOS.
Acreditando em Deuses imanentes, um pagão não pode crer nisso. Ele pode sim, crer que existe matéria, existe espírito, mas ambos pertencem e integram ao TODO, que é a própria imanência dos Deuses.
Ora, evoluir não pode ser para a alma humana, em um sistema de crença pagão, nada mais do que viver certas experiências, aprender, existir, simplesmente. Retribuição é feita aqui e agora, por isso nossa crença na Lei Tríplice, ou lei Universal do Retorno. Tanto nesta vida como em todas as demais que tivermos, esse retorno por nossas ações é inevitável, MAS não é com base nele que se volta à vida. Viver neste planeta não é um castigo ou expiação, como crêem os Kardecistas, a vida é um prêmio em si mesma!
NUNCA deixaremos de voltar a viver (quaisquer que tenham sido os atos que praticamos na vida anterior), porque JAMAIS uma parte do Corpo da Deusa se destruirá. Morte, necessariamente, faz girar a Roda, por isso é que dizemos que grande lição da Deusa é a Lição dos Ciclos Infinitos.
Quando dizemos a um novato muito influenciado por visões kardecistas de mundo que não cremos na evolução nos mesmos termos de Kardec, eles literalmente costumam entrar em pânico. Por que?
Kardec ofereceu ao cristão, que vive uma mitologia que promete suplícios pós-morte a erros e más ações cometidos em vida, uma espécie de alívio. Ele e seus seguidores racionalizaram a tal ponto o imaginário relativo a como seria o pós-morte, que afirmaram que a reencarnação tinha mecanismos conhecidos e explicados pelo ser humano. Ora, não é preciso muito esforço para perceber que isso só faz sentido se centrarmos o Universo no homem, “único ser feito à imagem e semelhança de Deus”.
Ouvimos freqüentemente desses ex-kardecistas (ou pessoas muito influenciadas por pensamentos kardecistas, mesmo que não professem o espiritismo):
”VOCÊ DIZ QUE NÃO EXISTE REENCAARNAÇÃO PARA EVOLUIRMOS, ENTÃO, PARA QUE ISSO? POR QUE EXISTE A VIDA? Isso tem que ter um sentido!”
Para wiccanianos, para neo-pagãos, não é preciso de modo nenhum haver um “motivo” ou explicação para a existência da humanidade, simplesmente SOMOS, estamos aqui, somos VIDA, somos os Deuses caminhando sobre a Terra.
É PRECISO QUE, URGENTEMENTE, ESSAS PESSOAS QUE QUEREM SER PAGÃS COMPREENDAM QUE O UNIVERSO NÃO PRECISA TER MOTIVO ALGUM PARA EXISTIR, OU PELO MENOS, NÃO É NECESSÁRIO QUE ISSO SEJA EXPLICÁVEL PELA RAZÃO HUMANA. Crer que é preciso ou possível que seres humanos compreendam completamente as “razões” da Divindade, é ingenuidade. Os Mistérios e os Deuses, conquanto sejam imanentes a nós, não se esgotam em nós!
Um exemplo para tornar esta afirmação mais concreta: animais como baleias, golfinhos, morcegos e cães ouvem ou sentem cheiros que para nós humanos não existem. Isso demonstra de maneira simples que a experiência humana não abarca a totalidade da existência universal. E quantas outras coisas não estão acessíveis aos sentidos e imaginação humana, mas EXISTEM, somente não sabemos ou não compreendemos?
Pensar todo o Universo, o Todo, a Deusa, os Grandes Mistérios em termos exclusivamente humanos é cair no vicio do antropocentrismo. Vamos sair dessa ilusão?

Para os que acreditam que é preciso haver “um motivo plausível, uma razão compreendida racionalmente” para os mecanismos de funcionamento dos Mistérios, recomendo meditem sobre esta linda letra de uma música da Enya:

“WILD CHILD”
“CRIANÇA SELVAGEM”

Sempre feche os olhos,
Sempre pare e escute,
Sempre se sinta vivo
E não esta perdendo nadaVOCÊ NÃO PRECISA DE UMA RAZÃODeixe o dia seguir, seguir
Deixe a chuva cairEm toda parte a sua voltaAgora se entregue…Deixe a chuva cair, cair
Que dia!Que dia para ter!Que jeito!Que jeitoDe passá-lo!Que dia!Que dia para dedicar aUma criança selvagem!
Somente dê um tempoNa bagunça diáriaTodo dia você encontraráTodas as coisas em equilíbrioVocê não precisa de uma razão…Deixe o dia seguir, seguir…
Todo Sol de verão,Toda tarde de inverno,Toda primavera por vir,Todo outono que findaVocê não precisa de uma razãoDeixe o dia seguir, seguir.

SOBRE A INDIVIDUALIDADE DA ALMA:
Dentre aqueles que crêem em Reencarnação estrito senso, há no mais das vezes a crença de que a alma humana sobrevive individualmente e assim reencarna vida após vida, sendo a mesma alma em corpos diferentes.
Essa crença é apenas uma de muitas possíveis. Não há dogma wiccaniano sobre isso, nem há qualquer impedimento de que se acredite nisso. Esta crença esta na esfera de liberdade individual de cada praticante. Talvez Tradições mais inflexíveis contenham mandamentos sobre crenças específicas em sobrevivência de uma mesma alma individualmente, mas se existem, são crenças apenas dessa Tradição.
Entre antigos bruxos, e na comparação de antigas religiões pagãs se encontra tanto a reencarnação como sobrevivência da alma individual, como também crenças mais genéricas, em que o retorno era esperado, mas não exatamente como se fosse o mesmo indivíduo.
O neo-paganismo, em nosso sentir, pode muito bem abranger ambos esses pontos de vista.
TENTATIVA DE PAINEL DE CRENÇAS POSSÍVEIS SOBRE O PÓS-MORTE PARA WICCANIANOS:
Creio que podemos dividir as crenças mais comuns entre wiccanianos (todas perfeitamente cabíveis em nossa religião) nos grupos abaixo, observando que inventei nomes para esses grupos apenas para ser mais didática, já que não conheço uma classificação a respeito. São eles:
1) Os GENERALISTAS RADICAIS que entendem o eterno retorno como algo genérico, excluindo a idéia de reencarnação específica como outro ser humano. Para Generalistas, somos células do Corpo da Deusa e o que constitui hoje nossa individualidade amanhã pode ser reaproveitado para retornar como qualquer coisa, desde a borracha que constituirá um pneu de caminhão até uma nova estrela, ou até mesmo um outro ser humano, animal ou planta, poeira de uma das luas de Júpiter ou um grão de areia no Pacífico. Geralmente (mas não sempre) os que fazem parte deste primeiro grupo são avessos à crença em uma sobrevivência da individualidade – e por isso rejeitam a idéia de reencarnação. E mais: há um sub-grupo que eu nomearia GENERALISTAS RADICAIS, que levam ao máximo a idéia de não haver um pós-vida (acreditam que imediatamente após a morte de alguém ou algo a Deusa faz com que ele ressurja de seu caldeirão como outra parte da realidade material). Isso estaria dentro de crenças pagãs também, uma vez que mesmo para generalistas radicais a matéria e o espírito existem, embora em planos de realidade diferentes.
2) Os GENERALISTAS MODERADOS, que têm no geral a mesma crença do item 1, MAS até admitem a possibilidade de reencarnação específica como outro ser humano. Para estes, os mecanismos que regem isso são parte do Grande Mistério ( que são os Deuses Antigos e o Todo) e é um absurdo nos preocuparmos com isso, uma vez que a Deusa simplesmente vai fazer acontecer. Se precisarmos da experiência de ser um ser humano novamente, isso acontecerá, se precisarmos ser o pneu de caminhão ou o ornitorrinco albino, idem.
3) OS REENCARNACIONISTAS, que acreditam em retorno específico como seres humanos, ou seres vivos. Os REENCARNACIONISTAS ESPECÍFICOS, que crêem que humanos voltam como humanos, grãos como grãos, animais como animais, porque sempre retornamos ligados à mesma ancestralidade. Entre Reencarnacionistas Específicos, há os NÃO-INDIVIDUALISTAS que não crêem na sobrevivência da alma individual, mas sim numa sobrevivência genérica, em que a alma que era uma pessoa na vida anterior agora pode ser composta de parcelas daquela alma e de mais outras. De outro lado, há os REENCARNACIONISTAS ESPECÍFICOS INDIVIDUALISTAS, que acham que a alma sobrevive inteira e ela mesma ocupa outro corpo.Geralmente (mas não obrigatoriamente), neste grupo, se filiam os que crêem em sobrevivência do espírito fora do corpo material, crendo em fantasmas, por exemplo (entre outras crenças).
4) OS “NÃO ESTOU NEM AI”, que simplesmente nem ficam cogitando nada a respeito de como voltarão, ou do que ocorre no pós-morte, só mantendo a crença de que ocorre e ponto final.
Seriam cabíveis críticas a cada uma dessas “correntes” de crenças:
– Aos Generalistas, costuma-se contrapor a seguinte pergunta: “Eu tenho memórias de outras vidas, como isso se explica?” A resposta mais comum obtida desse grupo é bem expressa na metáfora do tapete. Imagine um tapete composto de múltiplos fios. Isso seria a sua individualidade. Quando você morre, é como se o tapete fosse desfiado pela Deusa e jogado no caldeirão. Daí ela comporá outro tapete, e pode juntar nesse tapete fios que antes foram pessoas (ou pessoas e demais seres) diferentes. Se o novo tapete contiver diversos fios que antes eram seus, ou muitos fios que antes compunham outro indivíduo, é possível que vivências e impressões do antigo “tapete” (indivíduo) cheguem ao conhecimento do novo “tapete”, porem sem serem o mesmo indivíduo.
– Aos Generalistas Radicais, que negam a existência de fantasmas e espíritos de mortos, bem como de qualquer ser extra-físico, poderíamos perguntar: “Que são, então, as pessoas que se comunicam com pessoas já mortas- e fato comprovado por fenômenos mediúnicos e paranormais – existe comunicação de seres matérias e seres imateriais, como os Guardiões dos Elementos ou Povo das Fadas?” A resposta poderia ser: são memórias ou criações astrais de pessoas vivas, ou material remanescente de outras encarnações, ou vislumbres de outros momentos do tempo. Ou então: seriam outros planos de realidade não compreensíveis com nossos sentidos ordinariamente, mas ainda seriam parte da realidade material.
SOBRE EXISTÊNCIA DE ESPÍRITOS FORA DO CORPO:
Quando se discutem esses assuntos, geralmente eles são confundidos por outro, que até lhes é paralelo, mas não trata da mesma coisa.
Existe espírito sem corpo? Existe fantasma? Se existe, o que é?
Normalmente os wiccanianos, a não ser os mais extremados Generalistas Radicais, crêem na existência de fantasmas. Um generalista radical poderia dizer que fantasma para ele é um ser criado da energia da imaginação ou da força da memória de muitas pessoas. Quem pode julgar se isso é ou não correto? NINGUÉM. Crer nisso impede alguém de ser wiccaniano? NÃO.
Um Reencarnacionista Específico Individualista afirmará que fantasma é alma de pessoas mortas. Mas muitas outras das correntes já descritas concordariam com isto, embora talvez oferecessem explicações diferentes.
MINHA CRENÇA PESSOAL:
Sou uma generalista moderada. Creio que após a morte voltaremos talvez como seres humanos, ou animais, ou plantas, ou pedras, ou objetos, ou corpos estelares, ou seja, qualquer coisa que conhecemos no Universo OU talvez coisas que a espécie humana nem saiba que existem. Creio na sobrevivência individual da alma, embora não a confine na espécie humana. Creio em astral e seres extrafísicos como realidade palpável, com quem podemos interagir e creio também que os múltiplos mundos e múltiplos tempos fazem parte da realidade universal.
CREIO QUE A IMAGINAÇÃO DA DEUSA É MUITO MAIS AMPLA QUE A NOSSA, portanto creio que nosso pós-morte possa ser tão diferente das coisas que conhecemos que nem sequer conseguiríamos descreve-lo em palavras. Summerland ou Terra do verão não é um lugar concreto, como o Paraíso ou o inferno dos Cristãos. Summerland é um modo mito-poético de descrever um mistério que nenhum humano vivo pode atingir.
Não me preocupo com nada disso, só sei que voltarei e encontrarei meus entes amados novamente. Se nós seremos humanos, ovelhas, alfaces, avestruzes ou estrelas, não sei e nem interessa agora. HOJE minha única obrigação é ser feliz e viver plenamente e em liberdade a vida que os Deuses Antigos me deram, usufruindo suas experiência, aprendendo e crescendo com elas (o que, em certo sentido, poderia ser chamado Evolução de Conhecimento).
E notem, minha tradição não tem nada a ver com esta crença. NA TRADIÇÃO DIÂNICA DO BRASIL A CRENÇA NOS MECANISMOS DO ETERNO RETORNO SÃO LIVRES, bem como o são em todas as Tradições de que tenho noticia até hoje, a não ser que já tenham criado alguma bobagem nazista como algum tipo de Fundamentalismo Pagão. Nossa!!!
Para terminar esta pequena tentativa de desfazer a barafunda de idéias confusas e não pagãs que permeiam ate mesmo os meios pagãos, eu diria: NINGUÈM SABE a resposta correta sobre pós-vida, porque não temos a percepção completa do Todo, ou talvez até a tenhamos, mas sentidos, experiência e razão humanas não são suficientes para compreende-la inteiramente. O SER HUMANO JAMAIS CONSEGUIRÁ COMPREENDER COMPLETAMENTE OS MISTÉRIOS.
BRIGAR POR CAUSA DESSES ASSUNTOS? É uma das maiores bobagens e perda de tempo que já vi.
Bênçãos plenas da Mulher Que Muda.

VIVENDO RELAÇÕES AMOROSAS SUSTENTÁVEIS

A magia de viver sendo quem você realmente é, ao lado de uma pessoa inteira.

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Há muitos anos venho dando aconselhamento espiritual para o público. Seja como taróloga, terapeuta holística e xamânica, ou no exercício de meu sacerdócio na Wicca, a bruxaria moderna, já encontrei e partilhei de milhares e milhares de histórias de gente.

Gosto de ouvir, ponderar, acalmar ânimos exaltados, ajudar a analisar as alternativas, buscar as melhores escolhas e tenho vocação para compreender a história pessoal de cada um. Por isso, tornei-me há anos conselheira de muitas pessoas que buscam em primeiro lugar uma ouvinte, depois alguém que possa testemunhar a vida para cada um deles. É impressionante como as pessoas se esquecem do que queriam, do que desejaram, de quais eram suas verdadeiras aspirações. As pessoas acham que merecem pouco e, por medo e insegurança, se contentam com menos ainda. A maioria das pessoas vive a vida catando migalhas de alegria e mendigando felicidade instantânea e fugaz. E isso só as torna absurdamente infelizes, cada vez mais insatisfeitas, cada vez mais tristes e desiludidas.

Seja de pessoas que acompanho há anos, seja de pessoas que me consultam apenas uma vez, busco contribuir com compaixão respeitando cada dor, cada dificuldade narrada, cada busca de cura .

Mas nenhum assunto é mais falado, repetido, analisado, desejado, ansiado do que as relações românticas.

Neste período de Mabon, o Deus Celta do Amor, é  interessante que olhemos esta Segunda Colheita sob esse prisma: que venho eu colhendo de amor em minha vida? O que eu tenho a agradecer nesse campo da minha vida e como eu cheguei até esta situação? Qual foi meu plantio para estar agora tendo nos meus campos amorosos estes resultados?

Creio que de cada 10 pessoas que consultam oráculos, 15 tratam de amor.

E por que será que essa é, inegavelmente, a maior preocupação das pessoas?

Fomos criados na cultura do “… e eles viveram felizes para sempre”, a mesma cultura que considera “corretas”  apenas as relações heterossexuais monogâmicas, com pacto de fidelidade “até que a morte os separe”  e que gerem filhos.

Mas o modelo que os contos de fadas nos apresentam não é, nem de longe, o que a vida nos mostra. Viver relações românticas é complexo, complicado, confuso e muitas vezes assustador.

O Amor é a energia da criação, mas também, como não poderia deixar de ser,  é a energia da destruição. Ele gera as paixões e movimenta as pessoas e todos os seres, mas pode ser a força mais destrutiva que existe, justamente porque nada a ela se compara em magnitude e força.

As pessoas são famintas de amor.

Elas crêem que se tiverem Amor em suas vidas, nada mais fará falta. Idealizam o encontro amoroso como algo sublime e perfeito, que surgirá num passe de mágica e modificará tudo o que há de ruim e difícil no dia a dia. Plim!

Pena que isso está muito longe da realidade.

Essa visão ilusória do amor é a maior responsável pelas pessoas serem infelizes. Quando se espera de algo ou alguém uma coisa que não está em sua natureza, estamos fadados ao desapontamento.

Exemplifiquemos: se alguém esperar de um lobo que jamais queira comer uma ovelha, certamente se decepcionará. É da natureza dos lobos considerar as ovelhas suculentas e saborosas…

Imagine alguém que dedique sua vida a condicionar um lobo a não desejar comer ovelhas, a ser vegetariano… Por um certo tempo, o condicionamento até pode ser vencedor, mas na competição com a natureza intrínseca do lobo, com o que ele realmente é, vai acabar perdendo e o lobo vai se banquetear, mesmo que tenha “peso na consciência” depois…

Essa história apenas serve para ilustrar que não se pode criar relações amorosas em torno de padrões e exigências que um ser humano específico, real e concreto, avaliado em suas idiossincrasias, seja incapaz de cumprir.

O patriarcado, como sistema de dominação e opressão tanto de homens quanto de mulheres, criou algumas ilusões sobre o relacionamento romântico. Essas normas, consideradas na sociedade ocidental o padrão da normoafetividade ( um casal composto de homem e mulher, que deverão gerar filhos, que, por sua vez, reproduzirão os valores  e modo de viver de seus pais) tem suas origens ligadas ao surgimento e  hegemonia da propriedade, com suas regras sobre a herança da terra. O patriarcado e as religiões patrifocais, retilíneas e de transcendência que lhe são garantidoras criou uma ilusão. A cruel ilusão do esperar “a uma pessoa certa”, “the one”. Sua “alma gêmea”, uma metade perdida de você, sem a qual ninguém é completo e sem a qual ninguém será realmente feliz. Essa ilusão de que apenas um ser humano é responsável pela felicidade integral de alguém gera um sem número de interdições e proibições, mata a espontaneidade do desejo sexual, serve ao monopólio do prazer, no mais das vezes expresso no rígido controle sobre o corpo feminino, sua aparência, as atitudes das mulheres, o que lhes é permitido ou proibido.

Nós, que rompemos com o patriarcado e vivemos como pagãs e pagãos, precisamos perceber que até mesmo nossas relações e expectativas amorosas precisam ser revistas à luz de uma libertação de alguns conceitos desses que escravizam o desejo e as aspirações da maioria. E mesmo que alguém não seja pagão, mas ainda se insira nas religiões dominantes, essa liberação desses conceitos escravizantes somente será benéfica.

CONSELHOS DE MABON

Meu Primeiro Conselho às pessoas que buscam melhorar sua vivência da energia do amor é o seguinte: “Se libertem de expectativas irreais”.  Amar alguém não é a panacéia universal que tudo resolve. Pelo contrário: muito provavelmente uma relação romântica real vai acrescentar à sua vida desafios e problemas, embora também traga nutrição emocional e prazeres.

Segundo Conselho: “Seja equilibrad@”. Isso deve ser bem compreendido: nem se deve esperar demais colocando n@ amad@ imaginad@ a fonte de sua felicidade e a solução de todos os seus problemas, nem se deve passar a uma postura de querer pouco e se contentar com qualquer pessoa, mesmo evidentemente inadequada apenas para não estar sozinh@.

O Terceiro Conselho é “Tenham paciência”. Nada disso se resolve da noite para o dia. Aprenda a controlar sua angústia e adote métodos de controle da ansiedade, como meditação ou exercícios meditativos para aprender a ser você mesm@.

Quarto Conselho: “Não confunda amor com esperança de amor.”  A grande maioria das pessoas está tão desesperada pelo encontro amoroso que basta que uma pessoa esboce algum interesse para ela já começar  a traçar planos de casamento e filhos… Isso só revela imaturidade, desequilíbrio emocional e apenas afasta as pessoas de você. Nada assusta mais uma pessoa legal do que gente desesperada e faminta de qualquer imitação de amor.

Quinto Conselho: “Não busque sua outra metade, busque uma pessoa inteira e esteja inteira para essa pessoa.” Essa ideia de metades é pura ilusão. Busque pessoas íntegras e se prepare, de todo os modos possíveis, para poder oferecer a alguém sua própria integridade. Isso tem a ver com se auto-conhecer e buscar sempre o equilíbrio.

Sexto Conselho: “ Não busque pessoas que você pense em procurar mudar ou moldar às suas conveniências. “ Como o lobo de nossa historinha inicial, ninguém pode mudar sua natureza. Então, por exemplo, se fidelidade estrita é um valor importante e imprescindível para você, procure uma pessoa para quem esse valor também, seja importante. Se você conhece alguém e já sabe de antemão que essa pessoa precisa viver diversas aventuras amorosas para ser feliz, de que adianta fingir que isso nunca mais acontecerá? Pode ser até que essa pessoa goste de você o suficiente para tentar ser diferente, mas até quando ele aguentará e até quanto isso a fará feliz?   O descompasso das relações românticas ocorre quando as pessoas tentam ser o que não conseguem ser, muitas vezes para seguir as regras do patriarcado do tipo “mulheres precisam ser recatadas”, “homens precisam estar disponíveis para sexo sempre que chamados”, “todo mundo só é feliz em relações monogâmicas com exigência de fidelidade a ser paga com sangue se houver transgressões”, “toda mulher tem que ser mãe e todo homem só se realiza sendo pai”, “ninguém pode amar mais de uma pessoa” ou “ninguém pode amar uma pessoa do mesmo gênero”  e diversas outras regras que jamais deveriam ser consideradas “naturais”, nem mesmo levadas como a “normalidade da vida”. É a programação que sofremos desde o berço, quando criamos nossas meninas cuidando de bebes bonecas e nossos meninos brincando de provedores no jogo de Casinha que determina essas nossas dores e angústias se não cumprimos a programação normoafetiva em nossas vidas.

Sétimo Conselho: “Esteja aberta para as pessoas e não acredite na escassez”. Muitas pessoas, especialmente as que já passaram dos 30 ou 40 anos, começam a achar que “não há no mundo ninguém para elas”, “todo companheiro bom já esta com alguém”, “vou ser sozinh@ o resto da vida”, “eu tenho alguma coisa errada”. Tudo isso pode ser assim resumido: é uam crença na escassez e, como tal, trará escassez para a sua vida. Abra-se ao fato de que a Deusa e o Deus do Amor são plena abundância. Há muitas pessoas legais no mundo, deixe que elas cheguem até você acreditando que isso é possível. Seu pensar e seu sentir moldam seu mundo, especialmente se você for um@ brux@.

Oitavo Conselho: “ Seja realista”. Não projete nas pessoas seus sonhos, veja cada uma como quem ele é. Uma relação real e concreta depende de você abandonar ilusões e se focar no que é concreto e possível aqui e agora. Pare de sofrer com o padrão Príncipe Encatando ou o padrão Princesa Maravilhosa…

Nono e Principal Conselho: “Só entre em relações sustentáveis”. O conceito de sustentabilidade aqui é empregado exatamente no mesmo sentido em que é usado em Ecologia. A Terra tem certas capacidades de produção de alimento e fornecimento de matéria prima para uso humano. Quando essa capacidade é desrespeitada a Terra e a humanidade sofrem e os desequilíbrios se multiplicam. Quando as pessoas percebem os limites da Terra e a respeitam , ela é abundante e generosa e nada falta a ninguém. Sustentabilidade tem a ver com relações de longo prazo, respeito mútuo, compreensão do que é ou não possível, aceitação das diferenças e adaptação contínua às alterações cíclicas que atingem tudo. Nada é visto como pronto e acabado, não há regras imutáveis e a flexibilidade e os acordos tomam o lugar das regras impositivas aplicadas indistintamente e ao império das conveniências individuais.

Como nossa relação com a Mãe Terra, nossas relações amorosas só conseguirão ser realmente felizes e duradouras se e quando aprendermos a manter relações românticas sustentáveis. Isso se dá desde a escolha de pessoas que têm valores e aspirações próximos ou compatíveis com os seus, passa pela percepção de que mesmo formando um casal ambos ainda são indivíduos e precisam de seu espaço próprio para respirar, sentir e agir independentemente, fala da vocação para se partilhar com o outro, estando aberto ao acolhimento das diferenças como riquezas a respeitar e não como incômodos a eliminar ou mudar.

A ecologia das relações românticas também tem a ver com respeito aos limites do outro, com não esperar mais do que a pessoa tenha para dar. Tem a ver com maturidade e crescimento compartilhados, com plantar para colher junto, com entender o amor não como um truque instantâneo de mágicos de teatro, mas sim como o resultado da magia da vida.

Em resumo: como faz um agricultor responsável e preocupado em respeitar a Terra que o sustenta, aprenda a escolher as melhores e mais adequadas parcerias, respeite seus limites, escolham juntos as melhores sementes e aprendam, todos os dias, a cuidar da colheita do seu amor. Feliz Mabon 2013!

Imanência e Transcedência – A Wicca é Panteísta?

Antes de mais nada, preciso dizer que acredito haver um diálogo permanente entre Religião e Filosofia, não só entre si mas com todos os demais saberes, com todos se influenciando mutuamente. A visão que eu apresento aqui, reconhecidamente simplista, se foca nesse diálogo mais estrito, entre os dois campos mais próximos ao tema.

Transcendência é a ideia, dominante na filosofia tanto Ocidental quanto Oriental, de que há uma separação entre o plano físico e o plano espiritual. Ou, na modernidade Ocidental, uma separação entre corpo e mente. Quando traduzida pela religiosidade, tal ideia leva à crença na existência de divindades transcendentes, ou seja, que “habitam” um plano de existência diferente do “nosso”.

A ideia de transcendência também leva à conclusão de que existem valores morais e estéticos absolutos pré-determinados, iguais e universais para todos os seres. Assim, nessa visão, existiriam um Mal absoluto, um Bem absoluto, um Belo absoluto, etc. É a visão representada na modernidade ocidental, principalmente, dentre outros, pelos pensamentos Cartesiano e Kantiano.

Já a imanência é a ideia de que não há separação entre planos, seja corpo/espírito, seja corpo/mente. Quando transplantada à religiosidade, essa ideia nos leva à crença na não existência de divindades, o ateísmo, ou na crença em divindades imanentes, que são a própria Natureza, o próprio Universo, o panteísmo.

Com relação à moralidade, a imanência leva a uma crença na responsabilidade do indivíduo e da sociedade, sem o estabelecimento de valores absolutos, universais. Assim, nessa visão, Mal é o que me prejudica ou prejudica a minha sociedade, Bem é o que, ao contrário, me ajuda ou ajuda a minha sociedade, Belo é o que eu ou a minha sociedade admiramos como Belo, etc. É a visão representada na modernidade ocidental, principalmente, dentre outros, pelos pensamentos de Spinoza e Nietzche. É também a visão amplamente majoritária, explícita ou implicitamente, dentre os autores ditos pós-modernos.

Me apropriando (e provavelmente alterando o sentido, pelo que assumo a responsabilidade) de algumas palavras da Gerlaine Martins, na visão da imanência, temos consciência de que não existe um “Mal” ou um “Feio” em si mesmos, mas que costumamos atribuir a malignidade ou feiúra ao que é diferente de nós, ao que nos incomoda e nos faz mal. Por que fazemos isso?

Ainda me apropriando das ideias da Gerlaine, vejo que somos “viciados” numa espécie de Centrismo, que muito se parece com o egocentrismo da psicologia, mas que acontece também em termos coletivos, não individuais. Nesse Centrismo, projetamos nossas sombras, medos, recalques, individuais e coletivos, sobre outras pessoas e grupos ou sobre uma realidade imaginária.

A Wicca como a TDB (e, acredito eu, a maioria das outras tradições de Wicca) pratica se encaixa dentro da visão de imanência. E aí vem a pergunta: A Wicca é panteísta?

Nesse ponto a coisa se complica um pouco, dada a grande variedade de pensamentos dentre as diversas concepções de Wicca. Eu diria que, em sua maioria, os wiccanianos são panteístas. Se você acredita numa divindade imanente, você é provavelmente panteísta.

Por que provavelmente? Por que há algumas visões wiccanianas que dizem que a divindade, além de ser imanente a todo o Universo, é também “algo mais” que isso. Há ainda, no que eu acredito ser uma minoria das tradições wiccanianas, a crença num Uno transcendente anterior aos Deuses que, esses sim, são imanentes. Essas visões, que trazem de volta um pouco de transcendência, são chamadas de panenteísmo.

Outra questão que nasce daí é: São os Deuses wiccanianos onipotentes, onipresentes ou oniscientes?

Dentro de uma visão de imanência, somos todos, humanos, Deuses, cachorros, cenouras, garrafas de água, vírus do HIV, etc. potencialmente onipresentes, oniscientes e onipotentes. Afinal, trazemos todos a inteireza da Deusa dentro de nós. E ela é onisciente, onipresente e onipotente.

Nessa visão, nós somos uma coisa só, ser humano, sem nenhum tipo de separação, a não ser aquela da especialização das células, tecidos e órgãos. Mesmo essa separação, sabe-se, é relativa. Há experimentos, por exemplo com células-tronco, mas mesmo com outros tipos de células – por exemplo transformar células de pele em neurônios, em que células de uma especialização se transformam em outras. Há, inclusive, a transformação patológica entre células especializadas, como ocorre em alguns tipos de câncer.

Assim, o espírito seria tão somente uma expressão consciente desse corpo. Ou seja, ele seria o próprio corpo, apenas expresso de uma maneira diferente, sem nenhuma separação metafísica entre eles. Tudo é físico.

O que ocorre, porém, é que todos temos a ilusão de sermos manifestações limitadas dessa inteireza. Ao percebermos essas limitações, mesmo que ilusórias, nós acabamos tendo a noção da não onipresença, não onisciência e não onipotência. Se a Deusa é imanente, ela é o todo do Universo. Eu sou também a Deusa toda, logo eu trago “dentro” de mim o todo do Universo. Meu corpo, porém, tem a ilusão de ser limitado. Assim, na maior parte do tempo, eu me sinto “preso” a esse espaço-tempo onde eu acho que eu vivo.

No entanto, a própria forma como nossa magia funciona demonstra como de fato essas barreiras são ilusórias. Ao exercitarmos os oráculos, estamos alcançando um pouco dessa onisciência e onipresença. Ao exercermos magia transformadora, alcançamos um pouco da onipresença e da onipotência.

Nós, seres humanos, somos condicionados desde o parto a enxergarmos o mundo de uma perspectiva antropocêntrica, o que nos faz enxergar os Deuses, mesmo pagãos, como super seres humanos, o que eles de forma alguma são. Se nós, “meros mortais”, somos capazes de alcançar os atributos infinitos da Deusa, os Deuses, muito mais próximos a Ela, com toda certeza também podem, de forma muito mais potente.

A Mavesper, minha coautora neste blog, ou não blog, sei lá, veio me dizer “você é muito coerente mas seu pensamento ainda é muito humano. A Deusa pode ser completamente diferente disso tudo que você está falando. Pode até ser transcendente.”

Claro que ela tem razão. Mas eu ainda sou humano e tenho essa ilusão, imanente na realidade humana, de que sou limitado. Não existe racionalidade na Deusa, creio eu. De um ponto de vista humano, ela é infinitamente irracional, ou infinitamente louca… Donde se conclui que somos todos infinitamente loucos, mas eu tenho a ilusão de ser apenas limitadamente louco.

E, dentro dessas limitações, eu sinto a necessidade, mesmo que didática, de organizar meus pensamentos de uma forma que faça sentido, no meu caminho de autoconhecimento rumo à autoconsciência, de modo que eu consiga entender os fenômenos que me afetam.

De certa forma, isso é extremamente egoísta, porque eu estou atendendo primeiro os meus interesses de compreensão. Por outro lado, é ao mesmo tempo altruísta, pois sei que o caminho da Deusa é potencialmente muito mais forte quando trilhado em grupo.

Citando Spinoza (Ethica IV, P 40, minha tradução), “Aquilo que conduz a vida social ao homem, ou faz com que os homens vivam conjuntamente em harmonia, é útil, e, contrariamente, aquilo que induz à discórdia na comunidade é mal.” Lembrando que, para Spinoza, “útil” é sinônimo de “bom”.

Ou seja, quando eu, mesmo que egoisticamente, busco me aproximar da Deusa, pelo autoconhecimento e autoconsciência, e isso faz com que eu me harmonize mais com minha comunidade, com a comunidade humana como um todo, eu estou fazendo o bem, tanto para mim mesmo quanto para a comunidade.