ODE À IMPOTÊNCIA

pobre_diabo_by_leomaia

Os Deuses caminham no mundo, o Deus Solar em mil disfarces. Você pode ter topado com ele hoje no elevador, no trabalho ou na fila da padaria. Nunca sabemos quando e como os Deuses nos procurarão. O Deus Solar com seus Chifres lindíssimos e poderosos, uma parcela do Divino Masculino sempre cobiçada e sempre amada.

Mas o Deus Solar, como tudo o mais do Universo, também tem seu lado feio, bobo, tolinho, prepotente, mau e impotente. Se quando o desejamos ele parece Apolíneo, quantas vezes cremos ter ido para cama com Apolo e na verdade descobrimos sua porção pobre diabo…

Pobres diabos mergulhados em auto-piedade e auto conformação. Pobres diabos que se orgulham de seus feitos na cama, mas não sabem o que é ereção há anos e anos. Pobres diabos que acham que tem o direito ou talvez o dever de falar “verdades” tão fake quanto seu parco brilho…

Todas nós mulheres encontramos esses sujeitinhos na vida, esperando numa esquina, num perfil do facebook, num bar. Por momentos podemos até deixar de perceber que de pobres diabos se tratam, até os achamos inteligentes, interessantes… Mas sua natureza vampiresca, sem noção e sem compostura logo se revela. Ele vai tentar usar você e, quando não conseguir, tentará magoá-la de todas as formas, especialmente  a difamando  sobre aparência ou sexo…Baixo, como ele mesmo.

Deveríamos nós deixar marcas nesses pobres diabos, a avisar as incautas para não caírem nas mesmas esparrelas.

E enquanto eles se refestelam nas suas pretensas vitórias e seus desejos de vingança, nós que os descartamos andamos de cabeça erguida e dizemos, com o maior dó possível: “Pobre diabo!”.

Confusão

Sentado, à espera de um sinal, sina de quem aguarda, guarda os signos que se trocam, sinais trocados, verde pelo vermelho, branco pelo púrpura, no canto da boca, no encanto da bossa, na bolsa, pelos dourados, vermelhos e negros.

Sentado, à cata de uma sina, sinal dos tempos, cata ventos, ventos de mudança, muda, a boca violenta, silêncios que não voltam, signos mentais, assinala na lapela, pelos brancos, pelos bancos, palidez anasalada.

Sentado, à beira de um abismo, o sinal avisa, vista-se e se vá, a vau no rio da vida, avaliza o passado com sinais de futuro mesmo, o mesmo, ensimesmando-se, mantém-se a vida, sem signos, sigilos que se desfazem, e fazem sinal de volta.

Cuca

Lé com cré, cré e lé, crelelé, lelé? A cuca sã, dia sim, dia não, com figuras abstratas no concreto da calçada, com certas veredas desfazendo as cucurbitáceas que se escanteiam. Fura, mas não grampeia, que o café é mais importante que a faca amolada que às vezes falha, mas sobrevive mesmo cheia de arranhões.

Lábaros que se ostentam, discretos quando insabidos, exercícios solitários que buscam companhia, pois na única saída não se pode entrar, e lá e cá tudo é texto, tudo dá texto, com o texto do contexto que se descontesta.

Mas se a cuca te pega, daqui e de lá, e dela é o roxo que fica na pele marcada nigri solis da meia noite. Há sanidade? Não sei, só sei que são sãos os que são felizes.

Noite

Sentado espero o nascer da Estrela, horizonte claro que escurece a noite e amanhece a vida, enquanto a amada vida muda muda a vida, liberta e cura numa prisão livre de amar-se tanto, amada sponte que desponta à vida que se vive, que só juntos sabemos a amor.

Na revulsão noturna do maternal afeto, brilha a Estrela em meio a obscuros temores, tremores que se fazem de um suspirar suave, sibilante brilho de explosão candente, candor caliente de calcinantes coxins.

Farejo amor, suspira a amada, ao pé do ouvido a ouço arfar, mantendo o amor, mantendo a vida, instituição perene, estável união de seres maduros. E nessa maturação de uma vida, há braços que a colhem e transformam em amor.

Labirinto ínfero

A catedral dominava a cena frente à praça central da Cidade. Conseguia ser ainda mais imponente que o paço imperial, localizado ali ao lado, na mesma praça. De arquitetura românica, a igreja impressionava por sua austeridade e robustez, grossas paredes de pedra trabalhada, minúsculas janelas – mais parecia um castelo medieval. Ao seu redor, um largo complexo de construções ancilares, casas paroquiais, centros de caridade, catecismos, ordens terceiras, até mesmo um colégio, administrado pelos jesuítas.

Já o paço, por si só, seria uma obra dominante em qualquer outro cenário, não fora ser ofuscado pela opulência religiosa. De inspiração gótica, quase renascentista, suas torres, arcos e abóbadas impressionavam sempre os visitantes. Internamente, seus imensos corredores e amplos salões, com pés direitos altíssimos e riquíssima decoração, faziam dele um museu de grande requinte.

Já tarde da noite, cheguei a uma das entradas laterais da casa nobre que, eu sabia, intuitivamente, estaria aberta. Empurrada, a larga bandeira de madeira cedeu, fácil, bem azeitada. Entrei, cerrando-a novamente atrás de mim. O silêncio era sepulcral, grossos tufos de poeira flutuavam levemente no ar daquela ala em desuso da edificação, iluminada apenas pelo luar que se filtrava pelos vitrais. A opulência do ouro velho nos frisos, do mármore bem trabalhado, dos candelabros gigantescos, tudo aquilo entre que me oprimia e maravilhava.

Caminhando lentamente, meus passos ecoavam, ora abafados, ora ampliados, pelas paredes fartamente decoradas, retratos de antigos figurões, a maioria sequer ainda lembrada pelas atuais gerações. Em alguns deles conseguia reconhecer, bem levemente, minhas próprias feições, olhos, narizes, bocas, bochechas…

Após um corredor que parecia nunca terminar, localizei as escadarias que desciam às entranhas do leviatã arquitetônico. Um, dois, três andares, perdi as contas. Já estava, com toda certeza, bem abaixo do nível das ruas. Sabia, no entanto, que a Cidade tinha ainda mais segredos subterrâneos que toda sua opulência superficial poderia indicar.

Aos poucos, as paredes deixavam de ser mármore liso e passavam a ser escavadas na pedra bruta do subsolo. Os amplos corredores davam lugar a passagens cavernosas, quase claustrofóbicas. Tirei do bolso uma lanterna, que me dava apenas um pequeno feixe de luz, suficiente, porém, para não me perder no labirinto extenso dos segredos ínferos.

Deixei as escadas e segui por um daqueles acessos, caminho tortuoso. Segui adiante por alguns minutos. Após um tempo, não sabia mais em que ponto da Urbe eu estaria. Apenas seguia caminhando, na expectativa de encontrar o desconhecido, aquele chamado que me levara, eras atrás, à Cidade que ora explorava.

Telhados

A Cidade se esmaecia sob o céu nublado, neblinas esvoaçantes, chuvisco leve. O guarda-chuva, pequeno, não dava para a mãe e o rapaz, que então cedeu a ela o uso do aparato.

Sobre os telhados, a vista urbana parecia diferente, embora ainda familiar. Eles caminhavam com algum cuidado sobre as telhas úmidas da chuva, procurando nos beirais uma forma de voltar às ruas. Cada borda, no entanto, descortinava apenas um abismo liso até o asfalto negro.

Continuaram os dois, saltando de teto em teto, buscando sempre um caminho que os trouxesse de volta ao rés do chão. Encontraram, enfim, junto à catedral no centro da Cidade, edículas configuradas em cascateantes degraus, que lhes permitiriam, afinal, chegar ao piso lhano da Urbe onírica.

O rapaz, todavia, declinou de continuar, vez que se lembrara de se haver esquecido, algo importante, em algum ponto do caminho. Retornou, então, sozinho, pelo trajeto agora familiar.

Poço Escarlate

Riscos vermelhos sobre as peles brancas, presciência concretizada da configuração dos astros – sizígia de marte, vênus e lua. Aluados nos entregamos à explosão miriádica dos sentires múltiplos, vermelhos, brancos, multicolores.

Risos e lágrimas, marejares súbitos, à flor da pele, flor e estrela se unem ao tempo de um despertar. Desenhos multiplicam-se e o Sol vermelho se forma, cálido, canícula sobre um oásis raro em meio ao deserto branco de se desencontrar.

Na mansidão do encontro, a explosão se anuncia, breve, mas plena, energias alvirrubras na noite da alma, semente de um futuro possível.