OS RISCOS DO PERFEITO AMOR, PERFEITA CONFIANÇA

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por Mavesper Cy Ceridwen

Desde que começamos a nos interessar pelo caminho da Arte, em
nossas primeiras leituras, vemos que existe um lema em nossa
religião: Perfeito Amor, Perfeita Confiança. Quando lemos alguns dos
livros que descrevem mais acuradamente ritos iniciáticos, descobrimos
que essas palavras são, em algumas tradições, chamadas de senhas para
propiciarem a cerimônia de iniciação. Senha? Por que? Seriam essas
palavras uma espécie de “Abre-te sésamo” para a entrada em um coven?

Apreender apenas intelectualmente essa idéia pode dar ao praticante
muitas impressões errôneas a respeito.

Afinal, por que Perfeito Amor, Perfeita Confiança são necessários em
nossos Círculos e Covens? Seria isso um ideal abstrato ou um lema a
seguir?

Já ouvi muito a respeito do significado dessa expressão, na maior
parte das vezes, o comentário ou é feito por neófitos, que acham
tratar-se apenas de um símbolo ou metáfora, ou é feito por
praticantes já experientes, mas desiludidos, que por terem já
vivenciado problemas de traições ou brigas não crêem mais seja o
Perfeito Amor, Perfeita Confiança possível. Muitas vezes ouvi que
Perfeito Amor, Perfeita Confiança são ideais utópicos, são algo a
sempre ser perseguido, mas um ideal inatingível.

Aprendi na prática da construção de um Coven, que iniciou sua vida
como um Círculo, que Perfeito Amor, Perfeita Confiança é uma
conquista feita dia após dia. Sim, é uma realidade se todos nós nos
imbuirmos da consciência da importância dessa realização. Que me
perdoem os que se contentam com menos. Não creio exista um coven se o
mesmo não mantiver entre seus membros laços reais e concretos de
Perfeito Amor, Perfeita Confiança. Laços que resistem à dureza da
vida do dia a dia, que desafiam a convivência na diversidade, que
persistem mesmo após confusões e desentendimentos. Laços que desafiam
o tempo e a distância, porque são laços maiores e mais profundos que
os laços de sangue.

Voltemos ao significado simbólico para perceber a magnitude do que
estamos examinando. Nos rituais da maior parte das Tradições existe
um momento chamado desafio, ou seja, se pede que o postulante diga a
senha sem a qual não pode ser admitido em nossa religião. Nessa hora,
usualmente, a pessoa tem um punhal apontado para seu coração e
declara que ingressa no círculo mágico em Perfeito Amor, Perfeita
Confiança. Ora, pensem bem: ele só ingressa no Círculo empenhando sua
palavra de agir em perfeito amor e confiança com o risco da própria
vida! Ou seja: para ser uma bruxa@/sacerdote/isa vc declara que arrisca sua vida em
função de sua palavra de agir por esses estritos parâmetros, tendo
sido a confiança de todos os demais depositada em vc. Em outras
palavras: ao entrarmos em um Círculo ou coven todos
empenham suas vidas no cumprimento do lema. Caramba! Trocando em
miúdos, isso significa que declaro que posso morrer se descumprir meu
juramento feito aos demais… Já pensaram nisso?

Ao dizer isso não quero amedrontar ninguém, mas sim relembrar quão
importante é o penhor de nossas palavras e quanto isso exige de nós
para que nossas palavras não sejam vazias, nem nossos atos despidos
de significado.

Aliás, não é somente entre as pessoas que compõem o coven que o
Perfeito Amor, Perfeita Confiança é o regente maior da vida. Antes de
tudo, esse lema nos lembra que em primeiríssimo lugar estamos em
Perfeito Amor, Perfeita Confiança com os Deuses e os Antigos. Eles, mais
do que todos, são os que merecem nosso incondicional amor e
confiança. É neles que estão nossos caminhos, são eles que recebem
nossas vidas em amor, para que sejamos seus instrumentos vivos e
conscientes no mundo. Se temos Perfeito Amor, Perfeita Confiança nos
Antigos, então, ao nos depararmos com nossos irmãos de coven,
saberemos neles depositar, sem medos, sem reservas, esses mesmos
sentimentos.

Viver com outrem em Perfeito Amor, Perfeita Confiança é algo bastante
arriscado, porém. Não é sem receio que abrimos nossos corações e
almas, revelamos nossos segredos mais profundos e partilhamos nossas
dores e aflições. Mas é dessa partilha que se nutre o Círculo Mágico,
é desse lançar-se ao risco que cresce a irmandade inabalável de um
coven de verdade. Um coven é um lugar onde nossa fragilidade será
respeitada, nossa força será estimulada, nossos erros serão
impiedosamente criticados e onde seremos ouvidos sempre em compaixão.

Mas os riscos existem sim. Infelizmente, algumas vezes vocês
encontrarão no caminho, como eu encontrei, pessoas que não mereciam a
confiança que neles foi depositada. Há entre wiccanianos, pagãos e bruxas, como em todo lugar, pessoas falsas, fracas, infelizes, invejosas e traidoras. Não se deixem intimidar por isso. Cada um de nós Iniciador que recebe um novo dedicado, cada membro de círculo ou coven que recebe um

novato está sim se arriscando. Mas como no amor romântico, não existe
ganho se não houver risco.

Abram-se a esse risco sem medo, sabendo que se vocês mantiverem vivas
em seus corações a lealdade e a ação em Perfeito Amor, Perfeita
Confiança, nunca esses traidores e infelizes realmente os atingirão.
Eles são menos que pó, que o vento leva ao esquecimento.

Preservar-se demais impedirá vocês de encontrarem seus reais irmãos de
vida. Manter seus escudos e lanças sempre em riste não permitirá
jamais que vcs conheçam o que é viver em Perfeito Amor, Perfeita
Confiança.

O que é melhor? Arriscar-se a amar e ser ferido por isso, ou nunca
arriscar-se, não viver a dor, mas também nunca conhecer o amor?

Escolham por si. Eu fiz minha escolha há muito tempo e não me
arrependo. A Deusa nos dá o que precisamos viver. Se escolhermos o
Perfeito Amor, Perfeita Confiança, outros virão até nós e
encontraremos aqueles que como nós, nunca deixaram as decepções
macularem seu ideal de vida.

Ser uma bruxa, no meu entender, é abraçar o amor e entregar-se, por isso nossa senha é

Perfeito Amor, Perfeita Confiança.

Abençoados Sejam!

Texto de; Mavesper Cy Ceridwen

Imanência e Transcedência – A Wicca é Panteísta?

Antes de mais nada, preciso dizer que acredito haver um diálogo permanente entre Religião e Filosofia, não só entre si mas com todos os demais saberes, com todos se influenciando mutuamente. A visão que eu apresento aqui, reconhecidamente simplista, se foca nesse diálogo mais estrito, entre os dois campos mais próximos ao tema.

Transcendência é a ideia, dominante na filosofia tanto Ocidental quanto Oriental, de que há uma separação entre o plano físico e o plano espiritual. Ou, na modernidade Ocidental, uma separação entre corpo e mente. Quando traduzida pela religiosidade, tal ideia leva à crença na existência de divindades transcendentes, ou seja, que “habitam” um plano de existência diferente do “nosso”.

A ideia de transcendência também leva à conclusão de que existem valores morais e estéticos absolutos pré-determinados, iguais e universais para todos os seres. Assim, nessa visão, existiriam um Mal absoluto, um Bem absoluto, um Belo absoluto, etc. É a visão representada na modernidade ocidental, principalmente, dentre outros, pelos pensamentos Cartesiano e Kantiano.

Já a imanência é a ideia de que não há separação entre planos, seja corpo/espírito, seja corpo/mente. Quando transplantada à religiosidade, essa ideia nos leva à crença na não existência de divindades, o ateísmo, ou na crença em divindades imanentes, que são a própria Natureza, o próprio Universo, o panteísmo.

Com relação à moralidade, a imanência leva a uma crença na responsabilidade do indivíduo e da sociedade, sem o estabelecimento de valores absolutos, universais. Assim, nessa visão, Mal é o que me prejudica ou prejudica a minha sociedade, Bem é o que, ao contrário, me ajuda ou ajuda a minha sociedade, Belo é o que eu ou a minha sociedade admiramos como Belo, etc. É a visão representada na modernidade ocidental, principalmente, dentre outros, pelos pensamentos de Spinoza e Nietzche. É também a visão amplamente majoritária, explícita ou implicitamente, dentre os autores ditos pós-modernos.

Me apropriando (e provavelmente alterando o sentido, pelo que assumo a responsabilidade) de algumas palavras da Gerlaine Martins, na visão da imanência, temos consciência de que não existe um “Mal” ou um “Feio” em si mesmos, mas que costumamos atribuir a malignidade ou feiúra ao que é diferente de nós, ao que nos incomoda e nos faz mal. Por que fazemos isso?

Ainda me apropriando das ideias da Gerlaine, vejo que somos “viciados” numa espécie de Centrismo, que muito se parece com o egocentrismo da psicologia, mas que acontece também em termos coletivos, não individuais. Nesse Centrismo, projetamos nossas sombras, medos, recalques, individuais e coletivos, sobre outras pessoas e grupos ou sobre uma realidade imaginária.

A Wicca como a TDB (e, acredito eu, a maioria das outras tradições de Wicca) pratica se encaixa dentro da visão de imanência. E aí vem a pergunta: A Wicca é panteísta?

Nesse ponto a coisa se complica um pouco, dada a grande variedade de pensamentos dentre as diversas concepções de Wicca. Eu diria que, em sua maioria, os wiccanianos são panteístas. Se você acredita numa divindade imanente, você é provavelmente panteísta.

Por que provavelmente? Por que há algumas visões wiccanianas que dizem que a divindade, além de ser imanente a todo o Universo, é também “algo mais” que isso. Há ainda, no que eu acredito ser uma minoria das tradições wiccanianas, a crença num Uno transcendente anterior aos Deuses que, esses sim, são imanentes. Essas visões, que trazem de volta um pouco de transcendência, são chamadas de panenteísmo.

Outra questão que nasce daí é: São os Deuses wiccanianos onipotentes, onipresentes ou oniscientes?

Dentro de uma visão de imanência, somos todos, humanos, Deuses, cachorros, cenouras, garrafas de água, vírus do HIV, etc. potencialmente onipresentes, oniscientes e onipotentes. Afinal, trazemos todos a inteireza da Deusa dentro de nós. E ela é onisciente, onipresente e onipotente.

Nessa visão, nós somos uma coisa só, ser humano, sem nenhum tipo de separação, a não ser aquela da especialização das células, tecidos e órgãos. Mesmo essa separação, sabe-se, é relativa. Há experimentos, por exemplo com células-tronco, mas mesmo com outros tipos de células – por exemplo transformar células de pele em neurônios, em que células de uma especialização se transformam em outras. Há, inclusive, a transformação patológica entre células especializadas, como ocorre em alguns tipos de câncer.

Assim, o espírito seria tão somente uma expressão consciente desse corpo. Ou seja, ele seria o próprio corpo, apenas expresso de uma maneira diferente, sem nenhuma separação metafísica entre eles. Tudo é físico.

O que ocorre, porém, é que todos temos a ilusão de sermos manifestações limitadas dessa inteireza. Ao percebermos essas limitações, mesmo que ilusórias, nós acabamos tendo a noção da não onipresença, não onisciência e não onipotência. Se a Deusa é imanente, ela é o todo do Universo. Eu sou também a Deusa toda, logo eu trago “dentro” de mim o todo do Universo. Meu corpo, porém, tem a ilusão de ser limitado. Assim, na maior parte do tempo, eu me sinto “preso” a esse espaço-tempo onde eu acho que eu vivo.

No entanto, a própria forma como nossa magia funciona demonstra como de fato essas barreiras são ilusórias. Ao exercitarmos os oráculos, estamos alcançando um pouco dessa onisciência e onipresença. Ao exercermos magia transformadora, alcançamos um pouco da onipresença e da onipotência.

Nós, seres humanos, somos condicionados desde o parto a enxergarmos o mundo de uma perspectiva antropocêntrica, o que nos faz enxergar os Deuses, mesmo pagãos, como super seres humanos, o que eles de forma alguma são. Se nós, “meros mortais”, somos capazes de alcançar os atributos infinitos da Deusa, os Deuses, muito mais próximos a Ela, com toda certeza também podem, de forma muito mais potente.

A Mavesper, minha coautora neste blog, ou não blog, sei lá, veio me dizer “você é muito coerente mas seu pensamento ainda é muito humano. A Deusa pode ser completamente diferente disso tudo que você está falando. Pode até ser transcendente.”

Claro que ela tem razão. Mas eu ainda sou humano e tenho essa ilusão, imanente na realidade humana, de que sou limitado. Não existe racionalidade na Deusa, creio eu. De um ponto de vista humano, ela é infinitamente irracional, ou infinitamente louca… Donde se conclui que somos todos infinitamente loucos, mas eu tenho a ilusão de ser apenas limitadamente louco.

E, dentro dessas limitações, eu sinto a necessidade, mesmo que didática, de organizar meus pensamentos de uma forma que faça sentido, no meu caminho de autoconhecimento rumo à autoconsciência, de modo que eu consiga entender os fenômenos que me afetam.

De certa forma, isso é extremamente egoísta, porque eu estou atendendo primeiro os meus interesses de compreensão. Por outro lado, é ao mesmo tempo altruísta, pois sei que o caminho da Deusa é potencialmente muito mais forte quando trilhado em grupo.

Citando Spinoza (Ethica IV, P 40, minha tradução), “Aquilo que conduz a vida social ao homem, ou faz com que os homens vivam conjuntamente em harmonia, é útil, e, contrariamente, aquilo que induz à discórdia na comunidade é mal.” Lembrando que, para Spinoza, “útil” é sinônimo de “bom”.

Ou seja, quando eu, mesmo que egoisticamente, busco me aproximar da Deusa, pelo autoconhecimento e autoconsciência, e isso faz com que eu me harmonize mais com minha comunidade, com a comunidade humana como um todo, eu estou fazendo o bem, tanto para mim mesmo quanto para a comunidade.