Imanência e Transcedência – A Wicca é Panteísta?

Antes de mais nada, preciso dizer que acredito haver um diálogo permanente entre Religião e Filosofia, não só entre si mas com todos os demais saberes, com todos se influenciando mutuamente. A visão que eu apresento aqui, reconhecidamente simplista, se foca nesse diálogo mais estrito, entre os dois campos mais próximos ao tema.

Transcendência é a ideia, dominante na filosofia tanto Ocidental quanto Oriental, de que há uma separação entre o plano físico e o plano espiritual. Ou, na modernidade Ocidental, uma separação entre corpo e mente. Quando traduzida pela religiosidade, tal ideia leva à crença na existência de divindades transcendentes, ou seja, que “habitam” um plano de existência diferente do “nosso”.

A ideia de transcendência também leva à conclusão de que existem valores morais e estéticos absolutos pré-determinados, iguais e universais para todos os seres. Assim, nessa visão, existiriam um Mal absoluto, um Bem absoluto, um Belo absoluto, etc. É a visão representada na modernidade ocidental, principalmente, dentre outros, pelos pensamentos Cartesiano e Kantiano.

Já a imanência é a ideia de que não há separação entre planos, seja corpo/espírito, seja corpo/mente. Quando transplantada à religiosidade, essa ideia nos leva à crença na não existência de divindades, o ateísmo, ou na crença em divindades imanentes, que são a própria Natureza, o próprio Universo, o panteísmo.

Com relação à moralidade, a imanência leva a uma crença na responsabilidade do indivíduo e da sociedade, sem o estabelecimento de valores absolutos, universais. Assim, nessa visão, Mal é o que me prejudica ou prejudica a minha sociedade, Bem é o que, ao contrário, me ajuda ou ajuda a minha sociedade, Belo é o que eu ou a minha sociedade admiramos como Belo, etc. É a visão representada na modernidade ocidental, principalmente, dentre outros, pelos pensamentos de Spinoza e Nietzche. É também a visão amplamente majoritária, explícita ou implicitamente, dentre os autores ditos pós-modernos.

Me apropriando (e provavelmente alterando o sentido, pelo que assumo a responsabilidade) de algumas palavras da Gerlaine Martins, na visão da imanência, temos consciência de que não existe um “Mal” ou um “Feio” em si mesmos, mas que costumamos atribuir a malignidade ou feiúra ao que é diferente de nós, ao que nos incomoda e nos faz mal. Por que fazemos isso?

Ainda me apropriando das ideias da Gerlaine, vejo que somos “viciados” numa espécie de Centrismo, que muito se parece com o egocentrismo da psicologia, mas que acontece também em termos coletivos, não individuais. Nesse Centrismo, projetamos nossas sombras, medos, recalques, individuais e coletivos, sobre outras pessoas e grupos ou sobre uma realidade imaginária.

A Wicca como a TDB (e, acredito eu, a maioria das outras tradições de Wicca) pratica se encaixa dentro da visão de imanência. E aí vem a pergunta: A Wicca é panteísta?

Nesse ponto a coisa se complica um pouco, dada a grande variedade de pensamentos dentre as diversas concepções de Wicca. Eu diria que, em sua maioria, os wiccanianos são panteístas. Se você acredita numa divindade imanente, você é provavelmente panteísta.

Por que provavelmente? Por que há algumas visões wiccanianas que dizem que a divindade, além de ser imanente a todo o Universo, é também “algo mais” que isso. Há ainda, no que eu acredito ser uma minoria das tradições wiccanianas, a crença num Uno transcendente anterior aos Deuses que, esses sim, são imanentes. Essas visões, que trazem de volta um pouco de transcendência, são chamadas de panenteísmo.

Outra questão que nasce daí é: São os Deuses wiccanianos onipotentes, onipresentes ou oniscientes?

Dentro de uma visão de imanência, somos todos, humanos, Deuses, cachorros, cenouras, garrafas de água, vírus do HIV, etc. potencialmente onipresentes, oniscientes e onipotentes. Afinal, trazemos todos a inteireza da Deusa dentro de nós. E ela é onisciente, onipresente e onipotente.

Nessa visão, nós somos uma coisa só, ser humano, sem nenhum tipo de separação, a não ser aquela da especialização das células, tecidos e órgãos. Mesmo essa separação, sabe-se, é relativa. Há experimentos, por exemplo com células-tronco, mas mesmo com outros tipos de células – por exemplo transformar células de pele em neurônios, em que células de uma especialização se transformam em outras. Há, inclusive, a transformação patológica entre células especializadas, como ocorre em alguns tipos de câncer.

Assim, o espírito seria tão somente uma expressão consciente desse corpo. Ou seja, ele seria o próprio corpo, apenas expresso de uma maneira diferente, sem nenhuma separação metafísica entre eles. Tudo é físico.

O que ocorre, porém, é que todos temos a ilusão de sermos manifestações limitadas dessa inteireza. Ao percebermos essas limitações, mesmo que ilusórias, nós acabamos tendo a noção da não onipresença, não onisciência e não onipotência. Se a Deusa é imanente, ela é o todo do Universo. Eu sou também a Deusa toda, logo eu trago “dentro” de mim o todo do Universo. Meu corpo, porém, tem a ilusão de ser limitado. Assim, na maior parte do tempo, eu me sinto “preso” a esse espaço-tempo onde eu acho que eu vivo.

No entanto, a própria forma como nossa magia funciona demonstra como de fato essas barreiras são ilusórias. Ao exercitarmos os oráculos, estamos alcançando um pouco dessa onisciência e onipresença. Ao exercermos magia transformadora, alcançamos um pouco da onipresença e da onipotência.

Nós, seres humanos, somos condicionados desde o parto a enxergarmos o mundo de uma perspectiva antropocêntrica, o que nos faz enxergar os Deuses, mesmo pagãos, como super seres humanos, o que eles de forma alguma são. Se nós, “meros mortais”, somos capazes de alcançar os atributos infinitos da Deusa, os Deuses, muito mais próximos a Ela, com toda certeza também podem, de forma muito mais potente.

A Mavesper, minha coautora neste blog, ou não blog, sei lá, veio me dizer “você é muito coerente mas seu pensamento ainda é muito humano. A Deusa pode ser completamente diferente disso tudo que você está falando. Pode até ser transcendente.”

Claro que ela tem razão. Mas eu ainda sou humano e tenho essa ilusão, imanente na realidade humana, de que sou limitado. Não existe racionalidade na Deusa, creio eu. De um ponto de vista humano, ela é infinitamente irracional, ou infinitamente louca… Donde se conclui que somos todos infinitamente loucos, mas eu tenho a ilusão de ser apenas limitadamente louco.

E, dentro dessas limitações, eu sinto a necessidade, mesmo que didática, de organizar meus pensamentos de uma forma que faça sentido, no meu caminho de autoconhecimento rumo à autoconsciência, de modo que eu consiga entender os fenômenos que me afetam.

De certa forma, isso é extremamente egoísta, porque eu estou atendendo primeiro os meus interesses de compreensão. Por outro lado, é ao mesmo tempo altruísta, pois sei que o caminho da Deusa é potencialmente muito mais forte quando trilhado em grupo.

Citando Spinoza (Ethica IV, P 40, minha tradução), “Aquilo que conduz a vida social ao homem, ou faz com que os homens vivam conjuntamente em harmonia, é útil, e, contrariamente, aquilo que induz à discórdia na comunidade é mal.” Lembrando que, para Spinoza, “útil” é sinônimo de “bom”.

Ou seja, quando eu, mesmo que egoisticamente, busco me aproximar da Deusa, pelo autoconhecimento e autoconsciência, e isso faz com que eu me harmonize mais com minha comunidade, com a comunidade humana como um todo, eu estou fazendo o bem, tanto para mim mesmo quanto para a comunidade.

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