Casa na Árvore

Construção de sonhos, fachadas de vidro, eucaliptos, teto, livros, caracóis, um estudo sobre liberdade.

Vida conjunta, mistérios de sedução, virtudes compartilhadas, tentações. Asas distantes, voos curtos.

Imagens solitárias, beleza conhecida, sugestões. Ideias fluidas, falas pontuais, graciosa oferta de licor.

Um tempo para o dia que passa por uma vaga noção de quanto o tempo leva para chegar. Acho que chegamos.

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NÃO É POR R$0,20, NÃO É PELA COPA, É PELO BRASIL!

Não é a esquerda, não é a direita. Não são os partidos.

 

É o povo na rua, caminhando e cantando.

É o brado retumbante de um povo heroico, gritando por Liberdade!

É o colosso impávido, sem medo, dando a cara para defender seus direitos.

É a Terra adorada querendo que realizar seu sonho intenso.

 

Enfim, de fato, o raio de amor e esperança desce à Terra.

Cansamos de ficar deitados em berço esplêndido ao som do mar.

Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós.

E das lutas na tempestade, brada a voz: “Sem Violência!”

 

Não queremos paz no futuro e glória no passado.

Nossos peitos, nossos braços, são muralhas do Brasil.

O futuro é agora. A paz é hoje!

À clava forte, ímpias falanges, da polícia criminosa, gritamos: “Sem Violência!”

 

E nos policiais honestos, achamos irmãos, não tiranos hostis.

Somos todos iguais! Se é mister que de peitos valentes

haja sangue em nosso pendão, que seja o sangue dos tiranos,

não o dos cidadãos, fardados ou não.

 

Mas da guerra, nos transes supremos

Heis de ver-nos lutar e vencer!

Liberdade! Liberdade!

Abre as asas sobre nós,

 

Não tememos a própria morte, Terra adorada.

Queremos ver contente a Mãe gentil.

Parabéns, ó brasileiros, pois com garbo varonil vamos às ruas.

Ver ficar a Pátria livre ou morrer pelo Brasil!

CIDADÃO FRUSTRADO

Hoje eu sou um cidadão muito frustrado.

Eu estava dirigindo em Brasília, por volta das 17:30, quando parei no semáforo do Setor Comercial Sul, próximo à entrada da estação de metrô. Fui abordado por uma menininha, de cerca de 8 anos de idade, que me ofereceu doces para comprar. Recusei, claro. Não alimento a exploração de trabalho infantil.

Quando o sinal abriu, parei o carro na parada de ônibus, logo em seguida ao semáforo, e tentei ligar para o Conselho Tutelar. Nenhum dos telefones listados no site atenderam…

Sem desanimar, considerando que os Conselhos Tutelares são vinculados ao Ministério Público, liguei para a Ouvidoria do MPDFT. Fui atendido, fizeram meu cadastro, mas, quando eu disse que queria fazer uma denúncia de trabalho infantil, a atendente me orientou a preencher a ficha no site de internet. Insisti, dizendo que era uma situação de flagrante, que, se eles enviassem a força policial naquele momento, poderiam prender o adulto (ir)responsável. A resposta foi: “Senhor, situações de flagrante são com a DPCA. Aqui nós apenas acolhemos as denúncias e enviamos para investigação.”

Tentei ligar para a DPCA – Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente. Novamente, os números listados no site de internet não funcionaram.

Liguei então para o 190 e relatei o ocorrido. A resposta do atendente foi “Como não é uma situação de emergência, não podemos atender.” Eu ainda insisti: “Como não é uma situação de emergência? É um caso de flagrante, o crime está sendo cometido agora.” E a resposta “Essa não é uma situação de emergência, entre em contato com a DPCA.” Mesmo insistindo, dizendo que a DPCA não estava atendendo os telefones, o atendente do 190 se recusou a registrar minha denúncia.

Liguei, por fim, para o Disque-100, da SDH – Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Fui atendido, registraram toda minha narrativa, inclusive do descaso das autoridades competentes, e ficaram de encaminhar a denúncia para os “órgãos competentes”. Espero que o façam.

Mas, infelizmente, a menininha de 8 anos de idade provavelmente voltou para a casa do (ir)responsável que explora seu trabalho infantil, quando ela deveria estar na escola, ou em casa estudando, ou brincando, não trabalhando num ambiente perigoso e insalubre como o trânsito do Setor Comercial Sul no horário de rush.

Hoje eu sou um cidadão muito frustrado.

Mavesper Cy Ceridwen – Ato Ecumênico às Vítimas de Santa Maria

Sra. Presidenta, Autoridades, irmãos e irmãs de todas as crenças, como representante do Comitê de Diversidade Religiosa da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, eu venho trazer um texto que é fruto da colaboração de inúmeras religiões, e muitas delas de denominação não cristã.

Em primeiro lugar, como Bruxa e Sacerdotisa da religião Wicca, eu agradeço o convite e a hospitalidade da Igreja Católica e do CONIC, e a nossa participação aqui expressando a diversidade do povo brasileiro e apresentando a vocês um texto que foi composto com a colaboração do Zen Budismo, da Religião de Deus, do Templo da Boa Vontade, da Fé Bahá’i, da Legião da Boa Vontade, da Abrawicca, da IBWB, das religiões de matriz afro, do Santo Daime, da Igreja Messiânica, e de inúmeras outras religiões que não podemos agora mencionar por que realmente representamos dezenas delas.

Falar e reunir a expressão de tantas crenças diferentes, num momento como esse, é uma tarefa muito difícil. E essa é a carta que nós apresentamos, por que mesmo toda nossa diversidade de crenças, ela perde o sentido e se desfaz na solidariedade que nós prestamos às vítimas do incidente de Santa Maria.

ORAÇÃO AOS QUE SE FORAM E AOS QUE FICARAM

“Hoje, nos reunimos em uma Celebração de Passagem. Tudo tem um tempo sob o Sol, e o tempo de alguns muito jovens ainda, em sua maioria, findou. Outros, feridos, ainda lutam pelo restabelecimento. Isso nos assusta, choca e revolta, e expressamos nossa sensação de que é injusto que vidas no início sejam ceifadas sem maiores cerimônias! Essa dor experimentada por cada família perdura por muitos e longos anos. Muitos de nós ansiamos por vingança, justiça, castigos, e isso é compreensível e humano. Mas será suficiente?

Alguns poucos minutos. Foi o que bastou para tornar a vida simples e tranquila de centenas de famílias em uma espécie de pesadelo, do qual elas querem muito acordar.

Nesta hora, lembramos de tudo isso, mas há muito mais a lembrar.

Agora, acima de tudo, muito mais que pedir pelas almas dos que morreram, seja qual for nossa crença, temos que CELEBRAR.

Cabe a nós, reconhecendo a Morte como parte inafastável do ciclo natural da Vida, CELEBRAR.

Não a morte, mas o tempo que foi desfrutado da convivência de cada um desses que foram e aqueles que ficaram. A dádiva da vida.

Destes entes queridos de quem nos despedimos há alguns dias, lembramos de cada vitória, aprendizado, sorriso, lágrima compartilhada, experiência vivida. Mães e pais se lembrarão das primeiras palavras e passos, do primeiro sorriso. O primeiro dia de escola e a primeira vez que, com um aperto no coração, eles deixaram os filhos já crescidos partir para viagens ou baladas. Amigos e amantes se lembrarão de prazeres compartilhados, planos feitos e ambições de futuro. Professores se lembrarão da promessa que cada aluno sempre é. Familiares se lembrarão de festejos e gracejos, brigas, de churrascos e bailes…

Hoje acima de tudo, mesmo em meio às lágrimas e dificuldades, se somos religiosos, agradecemos à Divindade em que cremos, porque tivemos o privilégio de sermos parte da vida dos que foram. Também é assim eventualmente se entre nós houver aqueles que em Deuses não creem, mas também celebram a dádiva da vida, como a naturalidade da existência.

Estes, que se foram a outros planos, ou ao espaço que existe entra o aqui e o nada – seja qual for nossa crença pessoal, enriqueceram nossas vidas de muitas maneiras – e é esse o foco que devemos manter hoje.

A melhor forma de honrá-los e consolar os que choram por eles é esta: rir, celebrar, ser feliz como, com certeza, todos eles desejariam que suas amadas famílias e amigos fossem. Pensem: como eles se sentiriam ao ver pessoas desconsoladas? Não fariam tudo para transformar sua dor em sorrisos?

Por isso, mesmo o luto sendo necessário e inevitável, temos que deixar o rito de hoje ser uma passagem: da dor para a memória das alegrias, do choro para a lembrança dos sorrisos, do medo da solidão para a esperança do reencontro.

Hoje, pois, nós, irmãos e irmãs unidos na Diversidade Religiosa, lembramos que enquanto os que morreram forem lembrados, sua vida será eterna!

Falem deles, contem histórias, partilhem suas vidas e, nesse movimento, cantem suas canções preferidas, revejam suas fotos, bebam e comam o que eles gostavam, transformem os momentos de dor em muitos e infinitos momentos de agradecimento.

A vida, mesmo breve, é uma dádiva inigualável.

Quer creiamos em uma vida eterna no pós morte, quer em reencarnações, ou qualquer das variações desses muitos credos, ou em nada mais que esta existência, tenhamos certeza de uma coisa: os mortos nessa tragédia não morrerão de verdade, porque estão vivos no coração e lembrança de todas as brasileiras e brasileiros e de todos que esperam por Justiça.

Terminamos lembrando o poeta:

“Faze da dor alheia um elo de amizade, (…)
e então compreenderás um pouco da Verdade”.

Abençoados e consolados sejam os que choram de saudade!

Abençoados e curados sejam aqueles que ainda estão enfermos!

Abençoados e redivivos sejam os que passaram para outros planos!

E unidos no pensamento e no coração, estejamos todos juntos nesta noite de amor, harmonia, e agradecimento.”

Lerdeza

Odeio gente lerda.

Podem dizer que sou lerdófobo. É verdade. Mas enquanto não criarem o Dia do Orgulho Lerdo, ou algum outro movimento contra a lerdofobia, acredito não ser politicamente incorreto falar contra lerdos.

Dizem por aí que o pior cego é o que não quer ver. Eu discordo. Para mim, o pior cego é aquele que está vendo tudo e demora para entender a mensagem.

Mas o que me incomoda mesmo é o lerdo no trânsito. Aquele mala que insiste em andar devagar, que para no cruzamento mesmo quando não vem ninguém do outro lado, que demora incontáveis e dolorosos segundos para arrancar quando abre o semáforo… Vocês conhecem o tipo.

Aliás, aqui em Brasília nós temos, no trânsito, os lerdos ativistas. Aqueles que não se contentam em ser lerdos, querem que o resto do mundo também o seja. Você está atrás da figura, andando a 50 numa pista de 80. O que você faz? Tenta ultrapassar o indivíduo, certo? E a atitude esperada da criatura é que mantenha sua feliz e cordata velocidade, para que você possa concluir com êxito a manobra, certo? Nãããão… O lerdo ativista, ao se perceber sendo ultrapassado, acelera, acelera até que termine seu espaço para ultrapassá-lo e você tenha que retornar a seu devido lugar, atrás do lerdo. Lerdo esse que, então, contente em ter cumprido sua missão de lerdificar o mundo, reduz novamente sua velocidade aos maneiros cinquentinhas… Rinse, repeat.

Não acho que ninguém seja obrigado a correr. Aliás, sou a favor de direção defensiva, atitude cautelosa no trânsito, etc. Também sou partidário do “Está com pressa? Saísse mais cedo…” Mas, sério, o que passa na cabeça de uma criatura que, não contente em andar devagar, quer que o mundo inteiro siga seu ritmo?

Bom, como disse, odeio gente lerda.